A Mulher de Trinta Anos - Cap. 5: Os dois encontros Pág. 156 / 205

- Senhor... - disse ela com voz palpitante.

O assassino estremeceu.

- Uma mulher! - exclamou com doçura. - E possível? Afaste-se - continuou ele. - Não reconheço a ninguém o direito de me lastimar, de me absolver ou de me condenar. Preciso viver só. Vá, minha criança - acrescentou com um gesto de soberano -; eu reconheceria mal o serviço que me presta o dono desta casa se deixasse uma só das pessoas que a habitam respirar o mesmo ar que eu. Tenho de submeter-me às leis do mundo.

Essa última frase foi pronunciada com voz baixa. Abraçando na sua profunda intuição as misérias que lhe despertou essa melancólica idéia, lançou a Helena um olhar de serpente, e agitou no coração dessa singular mocinha um mundo de pensamentos até ali adormecidos. Foi como uma luz que lhe tivesse iluminado países desconhecidos. Sua alma achou-se subjugada, aterrada, sem que ela encontrasse força para se defender contra o poder magnético daquele olhar, por muito involuntário que fosse. Envergonhada e trêmula, retirou-se e só entrou no salão um momento antes de seu pai, de sorte que nada pôde dizer à mãe.

O general, preocupadíssimo, passeava silenciosamente, de braços cruzados, andando, num passo uniforme, das janelas que davam para a rua até as que davam para o jardim. A marquesa mantinha Abel no colo, adormecido. Moina, deitada na poltrona como um pássaro no seu ninho, dormitava indiferente. A irmã mais velha tinha uma almofada de seda numa das mãos, na outra uma agulha, e contemplava o fogo. O profundo silêncio que reinava na sala, em toda a casa e na rua era apenas interrompido pelos passos pesados dos criados que iam deitar-se; por algumas gargalhadas malcontidas, último eco da sua alegria e da festa nupcial; e ainda pelas portas dos seus respectivos quartos, quando as abriam, falando uns com os outros, e as fechavam.





Os capítulos deste livro