A Mulher de Trinta Anos - Cap. 1: Primeiros erros Pág. 41 / 205

dos maridos que sentem o jugo de um espírito superior, o marquês salvava seu amor-próprio deduzindo da fraqueza física a fraqueza moral de Júlia, que ele se comprazia em lastimar, pedindo contas ao destino por ter-lhe dado por esposa uma mulher doentia. Enfim, dizia- se vítima, quando era o carrasco. A marquesa, sobre carregada com todos os pesares daquela triste existência, devia ainda sorrir ao seu imbecil senhor, ornamentar de flores uma casa de luto e ostentar felicidade num rosto empalidecido por secretos suplícios. Essa responsabilidade de honra, essa abnegação magnífica deram insensivelmente à jovem marquesa uma dignidade de mulher, uma consciência de virtude que lhe ser viram de escudo contra os perigos do mundo. Além disso, para sondar a fundo aquele coração, talvez o sofrimento íntimo e oculto que coroava seu primeiro, seu ingênuo amor, a fizesse considerar com horror as paixões; talvez não conhecesse nem o arrebatamento nem as alegrias ilícitas mas delirantes que levam certas mulheres a esquecer as leis da prudência, os princípios da virtude sobre os quais repousa a sociedade. Renunciando, como a um sonho, às doçuras, à terna harmonia que a velha experiência da senhora de Listomêre Landon lhe havia prometido, esperou com resignação o fim das suas penas, desejando morrer cedo. Desde seu regresso de Touraine, sua saúde alterara-se cada vez mais, e a vida parecia-lhe medida pelo sofrimento; sofrimento, aliás, elegante, doença quase voluptuosa na aparência, e que podia passar aos olhos de pessoas superficiais por uma fantasia de mulher afetada. Os médicos tinham condenado a marquesa a conservar-se deitada num divã, onde se estiolava entre as flores que a rodeavam, murchando com elas. A sua fraqueza proibia-lhe os passeios e o ar livre; só saía em carruagem fechada.




Os capítulos deste livro