A Mulher de Trinta Anos - Cap. 1: Primeiros erros Pág. 66 / 205

Num caso desses, a dessemelhança dos destinos é quase sempre um poderoso vínculo de amizade.

- Está no tempo da caça? - perguntou Júlia, lançando um olhar indiferente ao marido.

Estava-se no fim do mês de março.

- O monteiro-mor caça quando e onde quer. Vamos para as florestas reais caçar javalis.

- Tome cuidado, que não lhe suceda algum acidente...

- Uma desgraça é sempre imprevista - replicou Victor sorrindo.

- A carruagem do senhor marquês está pronta - disse Guilherme.

O general ergueu-se, beijou a mão da senhora de Wimphen e voltou-se para Júlia.

- Se eu morresse vítima de um javali!... - disse num tom de súplica.

- Que significa isto? - perguntou a senhora de Wimphen.

- Aproxime-se - disse a senhora d’Aiglemont a Victor. Depois, sorriu como para dizer a Luísa: - Você vai ver.

Júlia ofereceu o pescoço ao marido, que se adiantou para beijá-la; mas inclinou-se de tal modo que o beijo conjugal resvalou pela gola da capa.

- Pode ser testemunha perante Deus - disse o marquês, dirigindo-se à senhora de Wimphen - de que necessito de um amuleto para obter este pequeno favor. Eis como minha mulher compreende o amor. Levou-me a isto nem sei por que artifícios... Boa noite!

E saiu.

- Mas o seu pobre marido é deveras bom - exclamou Luísa, logo que se acharam sós. - Ele a ama.

- Oh! Não acrescente uma sílaba a essa última palavra. O nome que uso me horroriza...

- Sim, mas Victor lhe obedece plenamente - retrucou Luísa.

- A sua obediência - redargüiu Júlia - é em parte fundada na grande estima que lhe inspirei. Sou uma mulher deveras virtuosa segundo as leis: torno-lhe a casa agradável, fecho os olhos às suas aventuras amorosas, nada gasto da sua fortuna, ele pode dissipar os rendimentos à vontade, só tenho o cuidado de conservar o capital.





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