A Mulher de Trinta Anos - Cap. 1: Primeiros erros Pág. 67 / 205

A esse preço vivo em paz. Não compreende ou não quer compreender a minha existência. Mas, se dirijo assim meu marido, não é sem temer os efeitos do seu caráter. Sou como o domador de ursos que teme que um dia a focinheira se quebre. Se Victor julgasse ter o direito de não me estimar mais, eu não ouso pensar no que poderia acontecer; porque é violento, cheio de amor-próprio, de vaidade sobre tudo. Não tem espírito bastante sutil para tomar um partido sensato numa circunstância delicada em que as suas paixões más estejam em jogo; é fraco de caráter; me mataria talvez provisoriamente, pronto a morrer de desgosto no dia seguinte. Mas essa fatal felicidade não é para recear...

Houve um momento de silêncio, durante o qual os pensamentos das duas amigas volveram para a causa secreta daquela situação.

- Fui bem cruelmente obedecida - disse Júlia, lançando um olhar significativo a Luísa. - Todavia, não lhe tinha proibido que me escrevesse. Ah!, ele me esqueceu, e teve razão. Seria demasiado funesto que seu destino fosse despedaçado! Basta o meu! Acredite, minha querida, que leio os jornais ingleses na esperança unicamente de ali ver seu nome. Pois bem, ainda não compareceu à Câmara dos Lordes.

- Você sabe inglês?

- Não lhe disse que aprendi?

- Pobre amiga - exclamou Luísa, apertando a mão de Júlia -, mas como você pode ainda viver?

- Isso é um segredo - respondeu a marquesa, com gesto de simplicidade quase infantil. - Ouça. Tomo ópio... A história da duquesa de ..., em Londres, sugeriu-me essa idéia. Sabe, Mathurin escreveu sobre isso um romance. As gotas de láudano que tomo são muito fracas. Durmo. Só tenho sete horas de vigília, que consagro à minha filha...

Luísa olhava o fogo, sem ousar contemplar a amiga, cujas desventuras acabava de ouvir pela primeira vez.





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