Maria Moisés - Cap. 2: Capítulo 2 Pág. 26 / 86

– Salvo tal lugar! – retrucou. – Rebentada te veja eu a ti!

O cirurgião continuou até ao quinto mês; depois, sorrindo com certa velhacaria, tocou brandamente na face da doente, e disse-lhe a meia voz o que quer que fosse muito semelhante ao que uma comadre, pela boca de Gil Vicente, havia dito três séculos antes a Rubena:

Isto é cousa natural,

E muito acontecedeira,

Se nunca fora outra tal,

Disséramos que era mal,

Por serdes vós a primeira.

A vida íntima é cheia de passagens ridículas. A gente, que escreve casos tristes, se lhes não joeirasse a parte cómica, não arranjava nunca uma tragédia. Estava ali aquela desgraçada mulher sobre as brasas do seu suplício, e à volta dela a bruta vida de seus pais – ele a esconder o pipo da aguardente de medronho, a mãe a pisar a erva semprónia, e a pedir sinceramente ao céu que lhe levasse o marido em uma das suas frequentes borracheiras.

Josefa já não saía da cama, a fim de evitar que a vissem. Expedia gritos de indizível angústia, estorcia-se em frenesins. Tinha alanceada a alma pelo tormento da desesperação. António de Queirós não chegava!





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