Maria Moisés - Cap. 2: Capítulo 2 Pág. 27 / 86

Um dia, porém, uma mulher não conhecida de Maria da Laje, muito velha e bem agraciada de semblante devoto, perguntou-lhe no adro, ao sair da missa, como estava a sua Josefa. A lavradeira disse mal-humorada o que sabia da doença, e perguntou-lhe quem era. A curiosa respondeu que era de além-Tâmega, e viera àquela freguesia por causa de um sonho que tivera. E, dizendo isto, levantou os olhos para o céu, e baixou-os logo para a terra com humildade de pessoa indigna das mercês do alto.

– Então que sonhou você, tiazinha? – perguntou Maria da Laje aconchegando-se da mulher com bastante fé.

– Em sua casa lho direi, pois que a sua casa é que venho.

E deixou cair uma das contas de pau-preto, que, batendo na imediata do rosário, fez o soído de umas castanhetas.

Quando entraram no quinteiro, saía o lavrador da adega, onde pela terceira vez fora matar o bicho, aquela hidra de Lerna que botava cabeças todo o santo dia no bucho hercúleo de João da Laje. Vendo a companheira da esposa, perguntou-lhe:

– Quem é essa criatura, ó Maria?

– Que te importa? Se havias de ir à missa, ficaste a beber, borracho! Entre cá pra dentro, santinha.

– Guarde-o Deus, senhor João – disse a hóspeda.





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