Maria Moisés - Cap. 2: Capítulo 2 Pág. 37 / 86

Com toda a certeza, Maria da Laje sofrera punhalada que rasga profundas fibras em peitos de mães honradas. Era dura de condição, tinha o orgulho selvagem da honra, compreendia barbaramente o dever da mulher, e julgava-se com direito a murmurar de todas as frágeis, sem discriminar as infelizes. O seu ódio às mães tolerantes com os desatinos das filhas era entranhado, convicto e implacável. Da caridade cristã só entendia o preceito da esmola. O confessor não lhe ensinara outra interpretação da terceira virtude teologal. Não perdoava cegueiras de amor porque não amara nunca. Se imaginava que a filha podia desvairar uma vez, sentia nas mãos as crispações nervosas de quem estrangula um pescoço. Como era deslinguada e mordacíssima nas fraquezas alheias, impunha tacitamente à filha o dever de a sustentar na sua soberba inexorável. Uma ligeira camada de verniz social não sei o que faria desta mulher. Ainda um destes dias contavam as gazetas de uma ilustre dama parisiense que matou a ferro frio uma neta que conspurcara a sua raça em amores abjectos. Em tempos tenebrosos, os mosteiros portugueses eram o dragão com os colmilhos abertos para esta espécie de vítimas que os pais lhe atiravam: se o cubículo claustral as não amordaçava, havia o tronco, a enxerga e a fome; depois a sepultura; mas o brasão limpo. Se há inverosimilhança na crueldade das mães como Maria da Laje é lá onde são raras as que podem ler às filhas o livro da sua vida honesta.

Ao entardecer daquele dia de Agosto, a mãe de Josefa, segundo o marido contou ao vigário na cangosta do Estêvão, foi levada em braços para a cama; e, naquele lance, João, ouvindo dizer que o pegureiro perdera uma rês, deixou a mulher a escabujar no catre, e foi interpelar o rapazinho, reclamando-lhe a cabra ou os fígados.





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