A Mulher de Trinta Anos - Cap. 3: Aos trinta anos Pág. 103 / 205

finura, sintoma que raras vezes engana, anunciava uma verdadeira sensibilidade, justificada pela natureza das feições que ofereciam esse maravilhoso acabamento que os pintores chineses espargem sobre suas figuras fantásticas, O pescoço era talvez um pouco comprido; mas são esses os mais graciosos, dando às cabeças das mulheres vagas afinidades com as magnéticas ondulações da serpente. Se não existisse um só dos mil indícios pelos quais os caracteres mais dissimulados se revelam ao observador, bastar-lhe-ia examinar atentamente os meneios da cabeça e os movimentos do pescoço, tão variados, tão expressivos, para apreciar uma mulher. Na senhora d’Aiglemont, o vestuário harmonizava-se com o pensamento que a dominava. O cabelo em tranças formava-lhe uma coroa no alto da cabeça sem enfeite algum, porque parecia ter renunciado para sempre a toda vaidade.

Por isso, nunca se surpreendia nela qualquer desses pequenos artifícios de faceirice que tanto estragam as mulheres. Ainda assim, apesar de o seu vestido ser extremamente modesto, não ocultava por completo a elegância do corpo, e todo o seu encanto consistia no feitio extremamente distinto, e as pregas numerosas e simples lhe comunicavam uma grande nobreza, se é possível deduzir idéias das disposições de um tecido. Contudo, talvez traísse as indeléveis fraquezas da mulher pelos minuciosos cuidados que lhe mereciam a mão e o pé; porém, se os mostrava com algum prazer, teria sido difícil à rival mais maliciosa achar-lhe gestos afetados, de tal maneira pareciam involuntários ou devidos a um hábito de criança. Esse resto de futilidade fazia-se até desculpar por uma graciosa indolência. O conjunto das feições, essa reunião de pequeninas coisas que torna uma mulher feia ou bonita, atraente ou desagradável, apenas se pode indicar, sobretudo, quando, como sucede com a marquesa d’Aiglemont, a alma é o elo de todos os pormenores, a que imprime uma deliciosa unidade.





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