A Mulher de Trinta Anos - Cap. 3: Aos trinta anos Pág. 108 / 205

Essas idéias desenvolvem-se no coração de um rapaz e dão origem à mais forte das paixões, porque reúne os sentimentos factícios criados pelos costumes aos sentimentos reais da natureza.

O passo mais importante e decisivo na vida das mulheres é precisamente aquele que consideram sempre o mais insignificante. Casada, não pode dispor de si, é a rainha e a escrava do lar. A santidade das mulheres é irreconciliável com os deveres e as liberdades do mundo. Emancipar as mulheres é corrompê-las. Conceder a um e si o direito de penetrar no santuário do lar não é colocar-se à sua mercê? Mas que uma mulher para aí o atraia não é uma falta, ou, para ser mais exato, o começo de uma falta? Deve-se aceitar essa teoria com todo o rigor ou absolver as paixões. Até agora, na França, a sociedade soube tomar um mezzo termine: zomba das desgraças. Como os espartanos, que só castigavam a imperícia, parece admitir o roubo. Mas talvez esse sistema seja muito sensato. O desprezo geral constitui o mais terrível dos castigos, porque atinge a mulher no coração. As mulheres empenham-se e devem todas empenhar-se em ser respeitadas, porque sem estima deixam de existir; por isso, é o primeiro sentimento que elas pedem ao amor. A mais corrompida entre todas exige, mesmo antes de tudo, uma absolvição para o passado, vendendo o futuro, e procura fazer compreender ao amante que troca por irresistíveis felicidades as honras que a sociedade lhe recusará. Não há mulher alguma que ao receber em sua casa, pela primeira vez, um rapaz e, achando-se só com ele, não conceba algumas destas reflexões; principalmente se é, como Carlos de Vandenesse, gentil e espirituoso. Igualmente, poucos rapazes deixam de fundar alguns desejos secretos sobre uma das mil idéias que justificam o seu amor nascente por mulheres belas, espirituosas e infelizes como a senhora d’Aiglemont.





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