A Mulher de Trinta Anos - Cap. 4: O dedo de Deus Pág. 136 / 205

Por Deus, retire-se, se não quer acabar por causar maiores desgraças. Se é um excelente notário, deixe-se ficar no seu cartório; mas, se por acaso se encontrar na sociedade, trate de ser mais circunspeto...

Voltou em seguida ao salão, deixando o notário sem o cumprimentar. Este permaneceu um momento perfeitamente assombrado, perplexo, sem saber o que aquilo significava. Quando cessaram os zumbidos que sentia nos ouvidos, julgou ouvir gemidos, idas e vindas pelo salão, campainhas soando fortes. Teve receio de tornar a ver o conde de Vandenesse e recuperou o uso das pernas para se escapulir pela escadas; mas, à porta do aposento, esbarrou com os criados, que acudiam pressurosos para receber as ordens do patrão.

- Eis como são todos estes grandes senhores - disse com seus botões quando se viu enfim na rua, à procura de um carro. Fazem que falemos, convidam-nos até por meio de cumprimentos; julgamos diverti-los; nada disso! Dirigem-nos impertinências, colocam-nos à distância e põem-nos mesmo na rua sem nenhuma cerimônia. Afinal, fui deveras espirituoso, tudo quanto disse foi conveniente e sensato. E recomenda-me que seja circunspeto, quando nunca deixei de o ser. Ora essa, ainda sou notário e membro da câmara. Foi decerto alguma graçola de embaixador; não há nada sagrado para essa gente. Amanhã, ele me explicará como foi que só fiz e disse tolices. Hei de perguntar-lhe a razão. Pode ser que eu seja culpado... Mas para que hei de quebrar a cabeça? Que tenho eu com isso?

O notário entrou em casa e submeteu o enigma à esposa, narrando-lhe minuciosamente os fatos ocorridos durante a noite.

- Meu caro Crottat. Sua Excelência teve perfeitamente razão dizendo que você só fez e disse tolices.

- Por quê?

- Meu querido, eu lhe digo que isso não impedirá que você recomece amanhã em qualquer outra parte.





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