A Mulher de Trinta Anos - Cap. 5: Os dois encontros Pág. 182 / 205

- nesse mo mento ela estremeceu. - Ei-lo. Mesmo no meio de um combate, entre todos os passos, reconheço os seus passos sobre o convés.

E de repente um rubor tingiu-lhe as faces, fez-lhe resplandecer os traços, brilhar os olhos... Notava-se a felicidade, o amor nos seus músculos, nas suas veias azuladas, no estremecimento involuntário com que to da a sua pessoa vibrava. Esse movimento de sensitiva comoveu o general. Com efeito, minutos depois entrava o corsário. Sentou-se numa poltrona, pegou o filho mais velho e se pôs a brincar com ele. O silêncio reinou durante um momento; o general, mergulhado numa espécie de sonho, contemplava esse elegante aposento, semelhante a um ninho de alciões, dentro do qual aquela família vogava sobre o oceano havia sete anos, entre os céus e o mar, confiada num homem, conduzida através dos perigos da guerra e das tempestades, como uma família é guiada na vida, em meio aos perigos sociais, por um chefe. Olhava com admiração para a filha, a imagem fantástica de uma deusa marinha, suave de beleza, transbordante de felicidade e fazendo empalidecer todas as jóias que a rodeavam ante os tesouros da sua alma, o fulgor dos seus olhos e a indescritível poesia que emanava da sua pessoa. Essa situação oferecia uma singularidade que o surpreendia, uma sublimidade de paixão e de raciocínio que confundia com idéias vulgares. As frias e estreitas combinações da sociedade morriam perante esse quadro. O velho militar sentiu tudo isso, e compreendeu ao mesmo tempo que sua filha jamais abandonaria uma existência vasta, tão fecunda em contrastes, preenchida por um amor tão verdadeiro; e, depois de ter uma vez experimentado o perigo sem se assustar, não podia voltar às tímidas cenas de um mundo mesquinho e limitado.

- Incomodo-os? - perguntou o corsário, rompendo o silêncio e olhando para a mulher.





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