A Utopia - Cap. 2: Capítulo 2 Pág. 14 / 133

e perderam todo o interesse. O mais raro e digno de admiração é agora uma república justa e sabiamente governada.

Rafael contou-nos que encontrou nesses povos leis tão loucas e injustas como as nossas, mas que também neles observou grande número de decretos e constituições cujo exemplo salvaria dos seus erros as nossas cidades, povos e reinos. Disso tratarei, como já afirmei, noutra obra.

Nesta, relatarei apenas o que Hitlodeu nos contou das maneiras, costumes, leis e instituições do povo da Utopia. Primeiro, porém, referirei o modo como surgiu, na nossa conversa, esta narração de Rafael. Hitlodeu, na sua história, discorria sabiamente sobre as coisas mais diversas e falava das leis e sábios decretos que encontrara; comparando-os com os nossos. Ao ouvi-lo reflectir tão perfeita e sagazmente sobre as leis e costumes de regiões tão diversas, como se toda a vida tivesse vivido em lugares onde se encontrara apenas de passagem, Pedro, admirado, exclamou:

- Na verdade, Mestre Rafael, muito me espanta que não tenhais procurado um lugar na corte de algum príncipe. Pois estou certo que nem um só deixaria de se sentir satisfeito com o vosso serviço, pois sois um homem hábil, não só para o distrair com o vosso profundo conhecimento dos países e povos, como proporcionando-lhe também exemplos instrutivos e o auxílio dos vossos conselhos. Deste modo conseguiríeis, para vós e para os vossos, favores e boas graças.

- Quanto à sorte dos meus amigos e parentes - respondeu Rafael -, pouco me preocupo. Suponho ter cumprido razoavelmente os meus deveres para com eles. Pois das coisas de que os homens em geral se separam, quando velhos e enfraquecidos pela doença, e cuja renúncia tanta dor lhes causa, dessas me se- parei ainda na flor da juventude, cheio de saúde e vigor, e as distribuí





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