A Utopia - Cap. 2: Capítulo 2 Pág. 16 / 133

- É duplo o vosso erro, meu caro More - retorquiu Rafael. - Pois nem possuo as qualidades que me atribuís e, mesmo se as possuísse, seria inútil sacrificar à república a minha tranquilidade. Em primeiro lugar, a maioria dos príncipes preocupam- -se apenas com a guerra ou a arte da cavalaria, cujo conhecimento não possuo nem desejo. As artes da paz são desprezadas: esforçam-se com mais aplicação em empregar todos os meios, bons ou maus, para aumentar os seus domínios, do que em governar com justiça e paz os que já possuem. Para mais, os conselheiros dos reis julgam-se todos tão sábios que dispensam o auxílio de outrem; outros, ainda, vergonhosamente compartilham e aplaudem a opinião insensata dos seus superiores. Todo o seu esforço se dirige no sentido de obterem as boas graças dos favoritos dos príncipes. Naturalmente, todo o homem pensa que a sua própria opinião é a mais acertada. O mesmo acontece na natureza com o corvo e o macaco, que consideram os seus filhos os seres mais belos da criação.

Ora, se em tal companhia, em que uns desdenham e desprezam as invenções dos outros homens e outros acham as suas as melhores, se, entre tais homens - dizia eu -, alguém descrevesse o que tinha lido, ou que tinha visto fazer noutros lugares, logo os ouvintes se mostravam surpresos e espantados. Pois temem perder a fama de sábios e passarem por imbecis, a menos que consigam encontrar argumentos que lhes permitam repreender e censurar os outros. Se o não conseguem, entrincheiram-se no lugar-comum: Os nossos pais e antepassados já assim pro- cederam, queira Deus que os possamos igualar em sabedoria.» E sentam-se novamente, como se tivessem sagazmente encerrado a questão e com esta resposta fechado a boca aos outros. Fazem-no como quem pensa que seria um perigo enorme se alguém se considerasse mais sagaz que os seus antepassados, em





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