A Vida Amorosa de Moll Flanders - Cap. 2: A vida amorosa de Moll Flanders Pág. 301 / 359

Em suma, falei com muito mais coragem do que julgara possuir, num tom tão comovedor e com tantas lágrimas - embora não tantas que me impedissem de falar - que se marejaram de pranto os olhos dos que me ouviam.

Graves e mudos, os juízes deixaram-me falar sem me interromper todo o tempo que quis, mas sem dizerem «sim» nem «não», e por fim pronunciaram a sentença de morte, uma sentença que foi para mim como a própria morte e que me deixou transtornadíssima. Fiquei sem ânimo, sem língua para falar, sem olhos para olhar Deus ou os homens.

A minha pobre governanta ficou num desespero tão grande que, ela que fora até ali a minha confortadora, precisou que a confortasse e, ora chorando, ora enfurecendo-se, perdeu de tal maneira a cabeça que parecia uma louca de Bedlam ( asilo para doentes mentais). Não era só a minha desgraça que a desesperava, mas também o horror de tomar consciência da sua própria vida de pecado, um horror diferente do que eu sentia, pois ela arrependia-se sincera e absolutamente dos seus pecados e lamentava do fundo do coração e da alma a minha desventura. Chamou um sacerdote, um bom homem sério e pie- doso, e, com o seu auxílio, entregou-se com tanto afã ao trabalho do seu arrependimento que, creio, e o clérigo assim o acreditou também, era uma penitente sincera. Mais, não o foi só naquela conjuntura, mas continuou assim, segundo me informaram depois, até ao dia da sua morte.

É mais fácil imaginar do que exprimir qual era, então, o meu estado de espírito. Nada mais tinha perante mim que a morte e, como não possuía amigos que me ajudassem ou interferissem por mim, nada mais esperava que ver o meu nome na lista da morte, ao lado de outros cinco, na sexta-feira seguinte.

Entretanto, a minha pobre e transtornada governanta mandou-me um sacerdote que, primeiro a seu pedido e, depois, a meu, passou a visitar-me.





Os capítulos deste livro