A Mulher de Trinta Anos - Cap. 4: O dedo de Deus Pág. 134 / 205

Helena começou então a chorar, a soluçar; toda a sala gritou para mandá-la calar, e papai fez-nos vir imediatamente embora...

O senhor de Vandenesse e a marquesa ficaram ambos estupefatos e como empolgados por um mal-estar que lhes tirava a força de pensar e de mover-se.

- Gustavo, cale-se - gritou o general. - Proibi-lhe que falasse no que se passou no teatro, e esquece já as minhas recomendações.

- Digne-se Vossa Senhoria desculpá-lo, senhor marquês - disse o notário. - Fiz mal em interroga-lo, mas ignorava a gravidade de...

- Não devia ter respondido - disse o pai, olhando com frieza para o filho.

A causa do brusco regresso das crianças e do general pareceu então bem conhecida do diplomata e da marquesa. A mãe olhou para a filha, viu-a em pranto e levantou-se para ir ter com ela; mas, nesse momento, seu rosto contraiu-se vivamente e deixou transparecer os sinais de uma grande severidade que nada temperava.

- Basta, Helena - disse ela. - Vá para o gabinete enxugar as lágrimas.

- Que fez a pobre menina? - indagou o notário, que quis acalmar ao mesmo tempo a cólera da mãe e o pranto da filha. - E tão linda que certamente deve ser a mais sensata criaturinha deste mundo; creio bem, minha senhora, que nunca lhe deu o mais pequeno desgosto. Não é assim, minha menina?

Helena, olhando a tremer para a mãe, enxugou os olhos, tentou apresentar um rosto sereno e fugiu para o gabinete.

- E que, sem dúvida - dizia o notário -, a senhora marquesa é demasiado boa mãe para não amar igualmente todos os filhos. E, além disso, muitíssimo virtuosa para ter dessas tristes preferências, cujos funestos efeitos se revelam muito particularmente a nós, notários. A sociedade passa-nos pelas mãos; por isso vemos as paixões sob a sua forma mais hedionda: o interesse.





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