A Utopia - Cap. 2: Capítulo 2 Pág. 18 / 133

Era homem eloquente, de linguagem enérgica e requintada. Aliava a um conhecimento profundo das leis um juízo seguro e uma memória excelente, qualidades naturais que aperfeiçoara' pelo estudo e pela actividade. O rei tinha grande confiança nos seus conselhos e, na altura em que aí me encontrava, os negócios públicos dependiam, em boa parte, da sua pessoa. Tendo vindo do colégio para a corte, ainda em tenra idade, aí ocupou o seu tempo na resolução dos sérios problemas e negócios do Estado, balouçando continuamente no mar revolto de infelicidades, adversidades diversas e múltiplas. E no meio dos perigos, sempre renovados, adquiriu profunda experiência do mundo, qualidade que, uma vez alcançada, jamais se perde.

Ora aconteceu que certo dia, em que me encontrava à sua mesa, aí também estivesse um certo homem de leis, conhecido pela sua perícia nesses assuntos. Pôs-se este homem, a propósito não sei já de quê, a louvar diligentemente a justiça que então se aplicava aos ladrões", a quem enforcavam, aqui e ali, aos vinte de cada vez. No entanto, apesar de tão poucos escaparem ao castigo, era caso estranho e digno de nota que, mesmo assim, os ladrões prosperassem por toda a Inglaterra.

-. Ora, não deveis ficar surpreendido - interrompi-o eu, já que em casa do cardeal podia exprimir livremente a minha opinião.

-A morte é um castigo demasiado injusto e mesmo prejudicial para o bem comum. É uma punição demasiado cruel para castigar o simples roubo e contudo, insuficiente para o impedir. O roubo não merece a morte, e não há castigo suficientemente horrível para impedir que roube quem não tem outra maneira de prover à sua carência mais extrema: a fome. Neste ponto, não só vós, como quase toda a gente, vos assemelhais aos





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