- Um ónagro assim manso é coisa que nunca vi - disse ele ao vílico, que estava ali ao pé. - Como veio aqui este ónagro?
O vílico ia responder, quando se ouviu uma voz: dir-se-ia que era o ar que falava.
- Foi nele que veio Astrigildo: será ele que o levará. Por ti ficaram órfãos os filhinhos do ónagro, mas por via do ónagro ficaste, oh conde, desonrado. Foste cru com as pobres feras: Deus acaba de vingá-las.
- Misericórdia! - bradou Argimiro, porque naquele momento se lembrou da maldita caçada.
Neste comenos dos homens do conde saíam com o cadáver sangrento do mancebo: o ónagro apenas o viu, saltou como um leão no meio da turba, que fez fugir, e, travando do morto com os dentes, arrastou-o para fora do castelo, e, como se tivesse em si uma legião de demónios, foi precipitar-se com ele do barrocal abaixo.
Era por isso que o conde ia cingido de corda e descalço, após os frades e a tumba. Queria fazer penitência no mosteiro por haver quebrado o juramento que tinha feito a seu pai.
As almas da condessa e do gardingo caíram de chofre no inferno, por terem deixado a vida em adultério, que é pecado mortal.
Desde esse tempo, as duas miseráveis almas têm aparecido a muita gente nos desvios de Biscaia: ela vestida de branco e vermelho, assentada nas penhas, cantando lindas toadas; ele retoucido aí perto, na figura de um ónagro.
Tal foi a história que o velho abade contou a meu pai, e que ele me relatou a mim, antes de ir cumprir sua penitência nessa guerra de mouros que lhe foi tão fatal.
Assim concluiu Inigo Guerra. Brearte, o pajem Brearte, sentia os cabelos arrepiarem-se-lhe. Por largo tempo ficou imóvel defronte de seu senhor: ambos eles em silêncio. O moço ric-homem não podia engolir bocado.
Tirou por fim da escarcela a carta de D.