- Ouça, minha senhora, veio pedir o meu conselho e servi-la-ei tão fielmente como se fosse minha irmã, mas ouso inverter os papéis, em virtude da sua simpatia para comigo, e pedir-lhe, por minha vez, conselho. Diga-me: que há-de um pobre diabo ultrajado fazer com uma prostituta? Que posso fazer para me vingar dela?
- Ai de mim!, senhor, o caso parece-me demasiado complicado para acerca dele o aconselhar. Acho, no entanto, que, visto a sua mulher lhe ter fugido, está livre dela. Que mais pode desejar?
- Ela fugiu, é certo, mas nem mesmo assim estou livre - replicou-me.
- Isso é verdade - concordei. - Ela pode endividá-lo, mas a lei proporciona-lhe meios de o evitar; pode apregoá-la, como dizem.
- Não se trata disso. Tomei as necessárias providências a esse respeito, mas não era a esse pormenor que me referia. Do que gostaria era de livrar-me dela de maneira a poder casar outra vez.
- Nesse caso, divorcie-se. Se tem provas do que afirma, obterá, por certo, o divórcio e ficará livre.
- Isso é muito aborrecido e dispendioso.
- Então, se conseguir que uma mulher de quem goste aceite a sua palavra, estou certa de que a sua não lhe negará a liberdade que ela própria toma. - Seria difícil convencer de tal uma mulher honesta - lembrou. - Quanto ao outro género, já aturei tanto à minha que não quero mais nada com meretrizes.
«Aceitaria a tua palavra de todo o coração se mo pedisses», pensei para comigo. Mas, em voz alta, respondi-lhe:
- O senhor mesmo impede qualquer mulher honesta de o aceitar, pois condena implicitamente todas as que ousassem aceitá-lo nessas circunstâncias, visto pensar que mulher que o aceite assim não pode ser digna.
- Gostaria que me convencesse, minha senhora, de que uma mulher digna me aceitaria; arriscar-me-ia.