A Cidade e as Serras - Cap. 12: CAPÍTULO XII Pág. 199 / 238

um vago - «muito bonito! bela terra!» - é que voltei os passos para casa, contornando ainda numa volta larga para lhe mostrar o lagar, uma plantação de aspargos, e o sítio onde existira a ruína de um velho castro romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o empurrei, como uma rés, para a livraria do meu bom tio Afonso, para lhe mostrar as preciosidades, uma magnífica crónica de D. João I por Fernão Lopes, a primeira edição do «Imperador Clarimundo», uma «Henríada», com a assinatura de Voltaire, forais de el-rei D. Manuel, e outras maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o arrastei à adega, para que ele admirasse a famosa pipa, que tinha, em relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram quatro horas, o meu Príncipe tinha o ar esgazeado e lívido. Cravando nele os olhos ferozes, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a ferocidade, declarei «que agora íamos ver a tulha». Mas então, com a mão nos rins, murmurou, humildemente, num murmúrio de criancinha:

- Não se me dava de me sentar um bocadinho. Então tive piedade, abri as garras, deixei que ele se arrastasse atrás de mim, para o seu quarto, onde descalçou logo as botas, se atirou para um fresco canapé forrado de fresca ganga, murmurando, num abatimento profundo:

- Bela propriedade! Consenti generosamente que - ele adormecesse, - e eu mesmo desci a verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mãos, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no pátio, a velha caleche do D. Teotónio, com as duas éguas ruças. Espreitando da janela descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob o guarda-pó, sem a horrendíssima filha.





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