- Então, minha querida, que será para mim quando partir? Que senti- ria eu se, por exemplo, a soubesse condenada a morrer na forca? Não acre- dita que, apesar de ser essa a sua profissão e o seu ganha-pão, haja mulheres capazes de tratar as crianças com tanto carinho como se fossem as suas próprias mães e de as compreenderem ainda melhor do que estas? Há muitas que são assim, minha filha, não tenha receio. Como fomos nós próprias criadas? Tem a certeza de que foi a sua própria mãe que a criou? No entanto, está gorda e bonita - prosseguiu a velha megera, afagando-me o rosto. - Não se preocupe com o pequeno - acrescentou, no seu tom tranquilizador. - Não lido com assassinas; emprego as melhores e mais honestas amas que existem e em cujas mãos as crianças sofrem tão poucos desastres como nas das suas próprias mães. Não nos falta carinho nem competência.
Não sei exprimir quanto me impressionou ao perguntar-me se tinha a certeza de ter sido criada pela minha própria mãe, pois, ao contrário do que ela supunha, eu estava absolutamente certa de que o não fora. Tremi, empalideci e disse para comigo: «Esta criatura não pode ser bruxa ou ter entendimentos com espíritos que a informem do que me aconteceu antes de eu própria ter compreensão para o perceber!» Olhei-a com grande susto, mas reflecti que ela não podia de maneira nenhuma saber fosse o que fosse a meu respeito e, por isso, tranquilizei-me, embora não tão depressa como desejaria.
Apercebeu-se do meu transtorno, mas, como ignorava a que era devi- do, prosseguiu no seu discurso acerca da injustiça da minha suposição de que as crianças eram assassinadas por não serem todas criadas pelas mães, tentando persuadir-me de que os inocentes de cuja colocação se encarregava eram tão bem tratados como se estivessem ao cuidado das mães.