A Linha de Sombra - Cap. 8: VI Pág. 145 / 155

A princípio, sentou-se na escotilha, com um ar de doente desesperado; mas a brisa intensa, que fizera os últimos destroços da tripulação perderem as últimas forças, parecia a cada nova rajada insuflar uma nova carga de força no seu organismo. Uma pessoa quase podia ver os seus progressos.

Para verificar o seu estado mental, referi-me deliberadamente ao antigo capitão do navio. Senti-me encantado ao ver que Burns não manifestou qualquer interesse fora do normal por esse tema. Pôs-se a discorrer sobre a velha história das patifarias daquele bandido de mau feitio com certo prazer de vingança e, a seguir, concluiu bastante inesperadamente:

«Estou convencido, comandante, de que ele já tinha a cabeça fora do lugar um ano ou mais antes de morrer.»

Melhoras miraculosas! Era-me difícil consagrar-lhe toda a admiração a que tinha direito, uma vez que devia concentrar todas as minhas atenções no governo do leme.

Por comparação com o torpor desesperado dos dias anteriores, a velocidade do barco era vertiginosa. Duas cristas de espuma passavam, correndo para um e outro lado das amuradas, à proa do navio e o vento cantava com notas fortes que, se fossem outras as circunstâncias, teriam sido para mim uma expressão de todas as alegrias desta vida. Sempre que a vela grande começava, debaixo das carregadeiras, a panejar e a bater, e a esfarrapar-se no seu aparelho, Burns atirava-me um olhar de apreensão.

«Que havia eu de fazer, diga-me lá, senhor Burns? Não a podíamos ferrar nem caçar. Eu só queria que aquele empecilho batesse até se desfazer em tiras e desaparecesse de uma vez. Estas pancadas idiotas enervam-me.»

Burns esfregou as mãos uma na outra e exclamou bruscamente:

«Como é que o capitão vai entrar com o navio no porto sem tripulação para o manobrar?»

Eu não sabia que responder-lhe.





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