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Capítulo 5: III

Página 64
III

A primeira coisa que vi lá em baixo foi a parte superior de um corpo de homem, como que projectada para trás, de uma das portas ao fundo da escada. Os seus olhos fitavam-me rasgadamente abertos e serenos. Uma das mãos segurava um prato do serviço de jantar, a outra um pano.

«Sou o novo capitão», disse eu com a maior tranquilidade.

Num abrir e fechar de olhos, no mesmo instante, ele desembaraçou-se do pano e do prato e franqueou-me a porta da câmara. Logo que a atravessei, desapareceu, regressando momentos depois a abotoar o casaco que vestira com a agilidade de um artista de vários papéis.

«Que é feito do imediato?», perguntei-lhe.

«Acho que está no porão, comandante. Vi-o a descer para o porão da ré há uns dez minutos.»

«Vá então dizer-lhe que estou a bordo.»

Por baixo do tampo envidraçado da escotilha, a mesa de mogno brilhava na semi-claridade, como um pântano de cor negra. O aparador, encimado por um largo espelho com uma moldura de latão dourado, tinha uma pedra de mármore. Exibia em destaque um par de candeeiros de metal prateado e alguns objectos mais... - tratava-se, é claro, de um cenário de porto fundeado. A câmara, propriamente dita, encontrava-se revestida por madeira de duas espécies diferentes, combinando-se de acordo com o esplêndido gosto desafectado característico da época em que o navio fora construído.

Sentei-me na cadeira de braços, à cabeceira da mesa - na cadeira do capitão, por cima da qual uma pequena agulha de marcar oscilava, recordando em silêncio uma atitude de ininterrupta vigilância.

Toda uma série de homens se sentara já naquela mesma cadeira. Subitamente esta ideia tornou-se-me consciente, com extrema vivacidade, como se cada um desses homens tivesse deixado qualquer coisa de si próprio entre aquelas quatro paredes definidas pelas anteparas abundantemente ornamentadas; como se uma espécie de alma, formada pela combinação de distintos elementos, a alma do comando, segredasse à minha alma as suas mensagens relativas a longos dias no mar e momentos de ansiedade.

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Capa do livro A Linha de Sombra
Páginas: 155
Página atual: 64

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Nota do autor 1
I 6
II 42
II 43
III 64
IV 90
V 106
VI 129
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