As Máscaras do Destino - Cap. 6: A PAIXÃO DE MANUEL GARCIA Pág. 41 / 80

À volta, os camaradas, o avô, comentavam tranquilamente o caso, continuando, indiferentes, a sua tarefa. A filha do fidalgo tinha sido pedida em casamento por aquele rapaz espanhol, D. João Manuel, que a acompanhava sempre por toda a parte. Um casamento de estrondo! Fidalgos, novos, ricos, bonitos... que lindo par! «Que lindo par!», repetiu uma estranha voz de sonâmbulo. E os muros, as pedras, começaram a dançar-lhe, diante dos olhos esgazeados, a dança macabra do seu destino perdido. Pobre poeta! Com o brutal encontrão, acordou sobressaltado do êxtase de tantos anos e deu com os olhos na miséria da vida! Tinha adormecido criança, despertou homem feito e, espavorido, estendeu as mãos para agarrar toda a sua linda adolescência inverosímil e quimérica que lhe fugia. As estátuas, os companheiros, os blocos de pedra, tudo redopiava em volta numa vertigem que não conseguiu vencer. Apoiou-se pesadamente à pedra que trabalhava, e, muito pálido, foi escorregando devagarinho até cair como um boneco a quem um bebé, curioso e azougado, tivesse cortado os fios da sua pobre existência de fantoche, que vivera de uma mentira uma vida que não passara de ilusão.

Quando voltou a si, circunvagou os olhos pelo quarto e viu a mãe, encostada à cabeceira da cama, fitando-o. Que estranho poder de videntes tem uns olhos de mãe! Manuel Garcia compreendeu que o seu segredo não era só dele, mas teve vergonha, corou, desviou os olhos. A mãe, com o pudor receoso de quem surpreende um mistério inquietante, calou-se, abafando um suspiro.

E a vida continuou. Manuel, cada vez mais encerrado no seu gelado mutismo, começara a viver uma vida desregrada. A sua casta mocidade afundava-se num lodaçal de vícios. De olhos fitos no topo do seu calvário distante, onde numa hora de suprema coragem encontraria a morte redentora, atolou-se, na medonha subida, em todos os charcos do caminho.





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