Procurar livros:
    Procurar
Procurar livro na nossa biblioteca
 
 
Procurar autor
   
Procura por autor
 
marcador
  • Sem marcador definido
Marcador
 
 
 
Navegar

Capítulo 9: O SOBRENATURAL

Página 69
O SOBRENATURAL

Naquela noite de Inverno, num dos acanhados mas confortáveis gabinetezinhos do clube, eram seis a festejar uma data, uma data memorável e festiva que nenhum dos seis sabia ao certo qual era: três rapazes e três raparigas, destas a que o mundo, numa amarga e prazenteira ironia, costuma alcunhar «de vida fácil».

Os rapazes eram, três oficiais de marinha, três primeiros-tenentes. O mais velho, Castro Franco, um belo espécime de estoira-vergas que andava na vida sempre como se andasse embarcado: à mercê das ondas. Inteligentíssimo e muito culto, cheio de originalidade e de uma graça à parte, tinha na sociedade a má reputação que, não sei como, costumam fazer-se os seres verdadeiramente inteligentes e bons. Uns diziam que era um bêbedo, alguns morfinómano, outros devasso; os mais benevolentes chamavam-lhe maluco. Ele ria-se, e deixava correr. A propósito da sua má reputação, citava muitas vezes o conhecido provérbio árabe: os cães ladram... a caravana passa. E a caravana lá ia passando, por vezes no meio de latidos infernais. O outro, Paulo Freitas, rapaz elegante, loiro, sempre de monóculo, um grande amigo de Castro Franco, de quem era a sombra quer de dia quer de noite. Rapaz ordenado, metódico, prático, passava tormentos e gastava torrentes de saliva na missão que se propusera de fazer entrar o outro no bom caminho, como ele dizia. Inútil saliva e vãos tormentos! Castro Franco desnorteava-o; sempre vário, pitoresco, fantasista, só era imutável em três coisas: na variedade, no pitoresco e na fantasia. Não tinha horas de comer nem de dormir, não sabia o valor do dinheiro nem do tempo; deitava, às mãos-cheias, numa suprema e inútil prodigalidade, pela janela fora, o primeiro e o segundo. Era o castigo das ordenanças que andavam sempre atrás dele, à procura dele, a lembrar-lhe tudo, a puxar-lhe pela casaca a toda a hora.

<< Página Anterior

pág. 69 (Capítulo 9)

Página Seguinte >>

anúncio
Capa do livro As Máscaras do Destino
Páginas: 80
Página atual: 69

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Ao meu irmão… 1
O AVIADOR 3
A MORTA 9
OS MORTOS NÃO VOLTAM 16
O RESTO É PERFUME 25
A PAIXÃO DE MANUEL GARCIA 33
O INVENTOR 47
AS ORAÇÕES DE SOROR MARIA DA PUREZA 59
O SOBRENATURAL 69
Links Relacionados
 
Artigos: Porque lemos literatura | O Ensaio na literatura | O primeiro texto da língua portuguesa 
© 2010 Ciberforma Informática. Todos os direitos reservados. Contacto | Política de privacidade | Mapa do Site