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Capítulo 5: IV

Página 6
IV

A família que Bernardo servia compunha-se de pai, mãe, três filhos, e uma filha, de todos os irmãos a mais nova. Por então contava quinze anos. Era bonita, mas pobre. Os morgados não a pediam; os filhos segundos também não; e a sensível menina precisava amar, porque o seu coração era da têmpera daqueles que não sabem conceber somente o amor com a condicional do casamento.

Eulália não tinha a mais superficial tintura de instrução, e por isso não podemos, em boa-fé, chamar-lhe romântica. Não era janeleira, nem rapinhava da papelaria dos irmãos o perfumado papel-cetim para depósito de sensaborias amorosas, e por isso não podemos chamar-lhe doida.

Era uma mulher, e nisto está dito tudo.

Este Bernardo é que realmente se parecia muito com os nossos poetas de aspirações ferventes e meditações profundas. Mas não era impostor, nem romanticamente parvo. O rapaz tinha uma alma como poucas, e uma tristeza inconsolável como nenhuma. "A minha organização - dizia ele - é um aborto, uma enfermidade incurável".

Eulália simpatizava com aquela tristeza, e com a figura do rapaz. Achava-lhe traços de semelhança com seus irmãos, e via nele o que ela chamava "cara de pessoa de bem". E, conquanto eu deteste esta maneira de classificar as caras, porque não conheço as "caras de pessoas de mal" tenho-me visto em circunstâncias forçadas de dizer o mesmo, porque há neste vale de lágrimas umas caras que não exprimem bem nem mal, e essas são as piores caras.

Bernardo não se lembrou nunca de fazer sentir à cozinheira da casa, e menos se lembraria de acender o fogo do amor no ilustre coração duma Lucena, com quem em toda a sua vida falara três vezes.

Eulália passou da doce simpatia ao amor abrasado, e do amor abrasado à paixão violenta.

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Capa do livro Uma Praga Rogada nas Escadas da Forca
Páginas: 29
Página atual: 6

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Prefácio 1
I 2
II 3
III 4
IV 6
V 8
VI 9
VII 11
VIII 12
IX 14
X 17
XI 18
XII 20
XIII 22
XIV 23
XV 26
Conclusão 27
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