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Capítulo 5: III

Página 65

«Também tu», parecia ela dizer-me, «também tu hás-de sentir o travo desta paz e desta inquietação, perscrutando intimamente o teu próprio ser... - tão obscuro, como nós o fomos, e, como nós, erguendo-te acima de todos os ventos e mares, perdido numa imensidade que não guarda a mínima impressão, que não conserva memória alguma, que não regista qualquer notícia de vidas humanas.»

Vi depois, muito ao fundo, no interior da moldura desbotada de latão recoberto a ouro, na meia claridade cálida coada pelo toldo, o meu rosto, apoiado nas mãos, e fixei os olhos em mim próprio, sem atender em nada a distância, tomado mais de curiosidade que de qualquer outra coisa, para além de certa comiseração por aquele último representante do que, no conjunto dos seus desígnios e propósitos, formava uma dinastia: não uma dinastia ligada pelo sangue, mas antes pela experiência, pela formação de ofício, pela ideia do dever e pela simplicidade bendita de um ponto de vista tradicional acerca da vida.

Impressionou-me a ideia de aquele homem, com os seus olhos fixos e sossegados, que eu estava a observar, como se se tratasse simultaneamente de mim e de outra pessoa, não ser precisamente uma figura isolada. Tinha o seu lugar segundo uma sucessão de homens que eu não conhecia, de quem nunca ouvira sequer falar, mas que se haviam forjado através das mesmas influências que eu, cujas almas, no que se referia ao trabalho próprio das suas vidas obscuras, não tinham segredos a esconder.

Bruscamente, dei-me conta de que havia outro homem na câmara, de pé e um pouco de lado, observando-me com atenção. Era o imediato. O seu comprido bigode ruivo definia-lhe as linhas da fisionomia, sugerindo-me uma personalidade conflituosa, mas isso de uma maneira algo estranha de precisar e que causava horror.

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Capa do livro A Linha de Sombra
Páginas: 155
Página atual: 65

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Nota do autor 1
I 6
II 42
II 43
III 64
IV 90
V 106
VI 129
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