O Crime do Padre Amaro - Cap. 24: Capítulo 24 Pág. 465 / 478

O senhor administrador soubera-o pela sua criada, que o ouvira da Dionísia. Dizia-se que fora um aneurisma.

- Pois senhor pároco, exclamou Bibi, desculpe se aflijo as suas crenças respeitáveis, que são as minhas de resto... Mas Deus cometeu um verdadeiro crime... Levar-nos a rapariga mais bonita da cidade! Que olhos, senhores! E depois com aquele picantezinho da virtude...

Então, num tom de pêsames, todos lamentaram aquele golpe que devia ter afetado tanto o senhor pároco.

Ele disse muito grave:

- Senti-o deveras... Conhecia-a bem... E com as suas boas qualidades, devia fazer, sem dúvida, uma esposa modelo... Senti-o muito!

Apertou silenciosamente as mãos em redor - e enquanto os cavalheiros recolhiam à cidade, o padre Amaro foi trotando pela estrada, que já escurecia, para a estação de Chão de Maçãs.

* * *

Ao outro dia, pelas onze horas, o enterro de Amélia saiu da Ricoça. Era uma manhã áspera: o céu e os campos estavam afogados numa névoa pardacenta; e caia muito miúda, uma chuva regelada. Era longe da quinta à capela dos Poiais. O menino do coro adiante, de cruz alçada, apressava. se, chapinhando a lama a grandes pernadas; o abade Ferrão, de estola negra, abrigava-se, murmurando o Exultabunt Domino, sob o guarda-chuva que sustentava ao lado o sacristão com o hissope; quatro trabalhadores da quinta, abaixando a cabeça contra a chuva oblíqua, levavam numa padiola o esquife que tinha dentro o caixão de chumbo; e, sob o vasto guarda-chuva do caseiro, a Gertrudes de mantéu pela cabeça ia desfiando as suas contas. Ao lado do caminho o vale triste dos Poiais cavava-se, todo pardo na neblina, num grande silêncio; e a voz enorme do vigário, mugindo o Miserere, rolava pela quebrada húmida onde murmuravam os riachos muito cheios.





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