Histórias Extraordinárias - Cap. 6: O QUARTO DO PESADELO Pág. 132 / 136

Como podia censurar Campbell? Aquela mulher possuía um encanto irresistível, nascido não apenas da sua beleza física maravilhosa. Parecia dotada de uma faculdade exclusiva: a de interessar-se por um homem, introduzir-se à força de artimanhas até ao mais fundo da sua consciência, atravessar aquelas pregas da sua personalidade demasiado sagradas para serem expostas ao mundo e aguilhoá-lo para a ambição ou mesmo para a virtude. Era aqui que se descobria precisamente a mortífera sabedoria das suas redes. Recordava-se do que se tinha passado com ele. Lucille era então uma mulher livre - ou assim, pelo menos, o julgou ele - e não surgira nenhum obstáculo para torná-la sua esposa. Mas suponhamos que estivesse casada. Teria isso sido um obstáculo insuperável para ele? Teria sido capaz de afastar-se dela sem chegar a saciar os seus desejos? Mason não tinha outro remédio que não fosse confessar que, mau grado toda a sua tenacidade de homem da Nova Inglaterra, não teria podido resignar-se. Porquê, então, sentia tamanho rancor contra este seu desditoso amigo que se via agora na mesma situação? E ao pensar em Campbell o seu coração transbordou de piedade e simpatia.

E ela? Ali a tinha, estendida no sofá, qual pobre mariposa destroçada, com os seus sonhos revelados, a sua conjura descoberta, as perspectivas do seu porvir tétricas e 'cheias de perigos. E o coração de Mason sentiu-se invadido pela compaixão, mesmo por ela, convicta de envenenadora. Conhecia pormenores do seu passado. Deitaram-na a perder desde o berço à força de mimos, de falta de pulso firme, de não lhe domarem os instintos, de deixá-la satisfazer sempre todos os caprichos, à força de astúcia, de beleza e de encantos. Nunca encontrou um obstáculo no seu caminho. Agora que surgia um, quisera afastá-lo, num acesso de loucura e de perversidade.





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