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Capítulo 4: A ABSOLVIÇÃO

Página 154
A ABSOLVIÇÃO

I

Era uma vez um padre de olhos frios e lacrimosos, que, no sossego da noite, chorava lágrimas frias. Chorava porque as tardes eram quentes e longas, e era incapaz de atingir uma união completa e mística com Deus Nosso Senhor. Por vezes, perto das quatro horas, havia um perpassar de raparigas suecas ao longo do caminho para onde dava a sua janela, e nos seus risos agudos ele encontrava uma terrível dissonância que o fazia rezar em voz alta para que o crepúsculo viesse. Ao crepúsculo os risos e as vozes eram mais suaves, mas por diversas vezes ele ia ao «Romberg's Drug Store» quando já estava escuro e as luzes amarelas brilhavam lá dentro e as torneiras niqueladas do bar reluziam, e ele descobria o cheiro a sabonete barato desesperadamente doce no ar. Passava por lá quando regressava de ouvir confissões nas noites de sábado, e tinha o cuidado de caminhar pelo outro lado da rua de modo que o cheiro a sabonete flutuasse no ar antes de lhe chegar às narinas à medida que pairava, como incenso, em direcção à lua estival.

Mas não havia maneira de fugir à quente loucura das quatro horas. Da sua janela, até onde a vista abrangia, o trigo de Dakota enchia o vale do Rio

Vermelho. Era terrível olhar para o trigo, e o desenho do tapete para o qual baixava os olhos, em agonia, fazia com que o pensamento mergulhasse em labirintos grotescos, sempre abertos ao sol inevitável.

Uma tarde, quando tinha atingido o ponto onde a mente deixa de funcionar, como um relógio velho, a governanta introduziu-lhe no gabinete de trabalho um lindo rapazinho muito vivo, de onze anos, chamado Rudolph Miller. O rapazinho sentou-se numa réstia de sol, e o padre, à sua secretária de nogueira, fingiu estar muito ocupado.

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Capa do livro A Década Perdida
Páginas: 182
Página atual: 154

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
O PRIMEIRO DE MAIO 1
O DIAMANTE DO TAMANHO DO RITZ 60
O MENINO RICO 108
A ABSOLVIÇÃO 154
TRÊS HORAS ENTRE DOIS AVIÕES 172
A DÉCADA PERDIDA 179
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