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Capítulo 5: V

Página 187

- Mas a mãe gosta - disse Stephen, calmamente.

Ouviu-se um assobio estridente no andar de cima e a mãe meteu-lhe nas mãos um pano húmido, dizendo:

- Enxuga-te e despacha-te, pelo amor de Deus.

Um segundo assobio estridente, furiosamente prolongado, trouxe uma das raparigas ao fundo das escadas: - O que é, pai?

- Aquela preguiçosa cadela do teu irmão já saiu?

- Já, sim, pai.

- De certeza?

- Sim, pai.

- Hum!

A rapariga voltou para trás, fazendo-lhe sinais para se despachar e sair silenciosamente pelas traseiras. Stephen riu-se e disse: - Ele tem uma curiosa ideia dos géneros, se pensa que cadela é masculino.

- É vergonhoso da tua parte, Stephen - disse a mãe -, e ainda hás-de vir a arrepender-te do dia em que puseste os pés naquele lugar. Eu sei como ele te modificou.

- Bom dia para todos - disse Stephen, sorrindo e lançando um beijo de adeus com as pontas dos dedos.

A calçada por trás da casa estava alagada e, enquanto a descia lentamente, com passos cuidadosos, por entre montes de lixo molhado, ouviu uma freira louca a gritar no manicómio dum convento, para lá do muro.

- Jesus! Oh Jesus! Jesus!

Afastou o som dos ouvidos com uma sacudidela irritada da cabeça e continuou a caminhar, tropeçando no lixo em decomposição, sentindo já no coração a mordedura da repugnância e da amargura. O assobio do pai, as reprimendas da mãe, o guincho da louca invisível eram, para ele, outras tantas vozes que ofendiam e ameaçavam humilhar o orgulho da sua juventude. Expulsou os seus ecos do coração com uma imprecação; mas, enquanto descia a avenida, sentindo a luz cinzenta da manhã a envolvê-lo, por entre as árvores que escorriam, e aspirando o cheiro estranho e selvagem das folhas e das cascas molhadas das árvores, a sua alma libertou-se dos seus sofrimentos.

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Capa do livro Retrato do Artista Quando Jovem
Páginas: 273
Página atual: 187

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
I 1
II 57
III 103
IV 156
V 186
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