Procurar livros:
    Procurar
Procurar livro na nossa biblioteca
 
 
Procurar autor
   
Procura por autor
 
marcador
  • Sem marcador definido
Marcador
 
 
 
Navegar

Capítulo 4: II

Página 62
Entre os seus companheiros, que tinham ali prendido a amarra, na margem do rio, todos de dimensões maiores que as suas, ele mostrava o ar de um ser de outra raça, mais escolhida... - um corcel árabe numa fila de pilecas de tiro.

Nas minhas costas, outra voz disse em tom de antipatia: «Espero que esteja contente com o barco, capitão». Mas nem sequer virei a cabeça. Era ele o comandante do vapor, e, fosse o que fosse que quisesse dizer com aquilo, achasse o que achasse do navio, eu sabia bem que, como certas mulheres raras, o barco era um desses seres cuja simples existência basta para nos fazer sentir um prazer desinteressado. Sentimos então que é bom vivermos no mundo em que vivemos.

Irradiava dele aquela sugestão de vida e personalidade que nos seduz nas obras de maior beleza que a mão dos homens faz. Por cima da escotilha do porão uma grande lingada de pau de teca balouçava; a sua massa inerte parecia mais pesada e sólida do que qualquer outra coisa a bordo. Quando começaram a arriá-la, o correr nos moitões provocou por todo o conjunto um tremular, que la da linha de água às borlas dos mastros, atravessando os nervos finos do seu aparelho, que se levantavam no frémito de quem acabasse de sentir um súbito peso. Pensei que era cruel tal:' vez carregá-lo tanto...

Ao pisar-lhe o convés, meia hora mais tarde, pela primeira vez, invadiu-me uma sensação de satisfação física profunda. Nada havia capaz de atingir a plenitude desse instante, o desenlace perfeito dessa experiência emocionante que me fora dada sem o desencanto nem os trabalhos preliminares de toda uma obscura carreira anterior.

O meu olhar ágil corria pelo navio, envolvendo-o, tomando posse dessas formas que materializavam a ideia abstracta do meu novo lugar de comando.

<< Página Anterior

pág. 62 (Capítulo 4)

Página Seguinte >>

anúncio
Capa do livro A Linha de Sombra
Páginas: 155
Página atual: 62

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Nota do autor 1
I 6
II 42
II 43
III 64
IV 90
V 106
VI 129
Links Relacionados
 
Artigos: Porque lemos literatura | O Ensaio na literatura | O primeiro texto da língua portuguesa 
© 2010 Ciberforma Informática. Todos os direitos reservados. Contacto | Política de privacidade | Mapa do Site