O Bobo - Cap. 8: VIII - Reconciliação Pág. 67 / 191

Tudo por aquele lado do palácio parecia tranquilo, e o reflexo da luz escassa que alumiava os aposentos contíguos ao piso do jardim, rompendo a custo as vivas cores das vidraças, vinha morrer nas trevas a pouca distância delas. O cavaleiro, ao atravessar o terreirinho, parara um momento e cravara os olhos naquela ténue claridade. Um suspiro mal contido lhe sussurrou nos lábios. Depois, como arrastado por um pensamento irresistível, continuou a caminhar rápido para o escuro vão junto da torre, e envolto no zorame coseu-se com a parede, como quem receava ser ali visto.

Não tardou que do lado da corredoura, oposto àquele por onde o cavaleiro viera, se aproximasse um vulto trazendo um cavalo de rédea. Este vulto vinha também coberto de uma espécie de zorame, porém alvacento como albornoz mourisco. Deu um silvo agudo, a cujo soído Egas pareceu reconhecê-lo, porque, saindo-lhe ao encontro, perguntou em voz baixa e em árabe:

– És tu, Abul-Hassan?

– É o vosso servo – respondeu o vulto na mesma língua, parando e sofreando o cavalo.

– Falaste com teu irmão? A que horas se erguem as pontes das barbacãs? – perguntou de novo o cavaleiro.

– Apenas acabar o banquete – tornou o mouro. – Os vigias receberam ordem para não deixarem sair ninguém do burgo passado esse momento.

– O meu saio de malha – prosseguiu Egas –, a cervilheira e a espada?

Sem dizer palavra, Abul-Hassan tirou as três peças de sob o albornoz. O cavaleiro vestiu à pressa o saio, pôs na cabeça a cervilheira, afivelou sobre os ombros aquela espécie de camisa de ferro que vestira, cingiu sobre esta a espada, e, atirando o zorame para cima do cavalo, disse ao mouro:

– Deixa-te aí ficar. Se vier alguém que te não conheça e pergunte o que és e o que fazes neste sítio, responde que és um cavalariço do senhor de Trava, que te ordenou que esperasses aqui com um corredor folgado. Depois de assim responderes ninguém ousará perguntar-te mais nada.





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