O Bobo - Cap. 10: X - Generosidade Pág. 91 / 191

A rainha fez uma pausa. O alferes-mor aproveitou aquela interrupção, e respondeu visivelmente perturbado:

– De mais, senhora, me tendes provado a vossa talvez infundada estima: maior do que a realidade me tendes feito acreditar o esforço do meu braço. Encontrando por vós uma honrada morte no campo da batalha eu só poderei mostrar que era, pela lealdade, se não digno de tantas honras, ao menos digno da vossa confiança.

– Não falemos de morte! – atalhou D. Teresa. – Tais pensamentos são de mau agouro nas vésperas de combater. A tua vida me é cara, e brevemente ela te não pertencerá toda a ti. A mais grata recompensa da tua lealdade, alferes-mor de Portugal, vais tê-la.

D. Teresa tomou então pela mão a filha de D. Gomes Nunes e, fazendo-a adiantar alguns passos, prosseguiu:

– Esta é a recompensa!

O conde, que preparara aquela cena, dava todos os sinais de contentamento ao ver o espanto de Garcia Bermudes que recuara ao ouvir semelhantes palavras. Fernando Peres obtivera com grande dificuldade que D. Teresa assim constrangesse Dulce a dar a mão de esposa a um homem que não amava. Não lhe escondera ele que isto era uma violência; e sem o desgraçado predomínio que tinha no coração da rainha as suas diligências sairiam baldadas. Por isso com sobeja razão exultava.

Uma palidez mortal cobrira o rosto de Dulce ao ouvir as palavras da sua mãe adoptiva, que lançara para ela o olhar que o algoz noviço volve para a sua vítima antes de desfechar o golpe. A rainha sentiu-lhe palpitar o terror na mão que tinha apertada na sua.

– Oh, senhora! – murmurou a donzela, alevantando os olhos para a rainha, com uma inflexão de voz tão meiga, tão tímida e tão dolorosa, que a bela infanta sentiu apertar-se-lhe o coração.





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