As Viagens de Gulliver - Cap. 5: Capítulo III Pág. 208 / 339

Agradeci efusivamente a este ilustre cavalheiro pelas claríssimas explicações e prometi-lhe que, se tivesse a sorte de um dia regressar à minha pátria, lhe faria a justiça de o apresentar como o único inventor de tão extraordinário artefacto. Pedi autorização para desenhá-lo. Disse-lhe que, embora na Europa erudita haja o hábito de roubar os inventas uns aos outros (o que, pelo menos, tem a vantagem de suscitar uma controvérsia sobre quem é o verdadeiro inventor), saberia tomar todas as precauções necessárias para que nenhum rival lhe arrebatasse a honra desta descoberta.

Prosseguimos a visita, dirigindo-nos ao instituto de línguas, onde três professores discutiam os meios de aperfeiçoar o idioma do país.

O primeiro projecto consistia em condensar a frase, reduzindo os polissílabos a monossílabos, suprimindo verbos e particípios, uma vez que só os nomes correspondem às coisas imagináveis que realmente existem.

O outro projecto propunha a abolição total e absoluta das palavras, com benefícios incalculáveis para a saúde e para a poupança de tempo. É evidente que todas as palavras que pronunciamos ocasionam uma certa deterioração e corrosão dos nossos pulmões e, consequentemente, contribuem para diminuir a nossa vida. Assim foi proposta uma solução: já que as palavras eram apenas nomes de coisas, melhor seria que cada ser humano trouxesse consigo as coisas relativamente às quais tivesse a intenção de falar. E este invento teria, certamente, proporcionado um maior bem-estar físico e comodidade se não tivesse acontecido que as mulheres, mancomunadas com a ralé e os iletrados, ameaçassem amotinar-se, a menos que lhes fosse permitido conservar o direito de falar a sua língua, tal como o tinham feito os antepassados; por aqui se vê como o vulgo é um permanente e irreconciliável inimigo da ciência.





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