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Capítulo 6: Capítulo 6

Página 127

Mas no dia seguinte, quando Carlos chegou, já a «Vila Balzac» o esperava, toda em festa: à porta «o pajem», um garoto de feições horrivelmente viciosas, perfilava-se na sua jaqueta azul de botões de metal, com uma gravata muito branca e muito tesa; as duas janelas em cima, abertas, mostrando o reps verde das bambinelas, bebiam à larga todo o ar do campo e o sol de inverno: e no topo da estreita escada, tapetada de vermelho, Ega, num prodigioso robe-de-chambre, de um estofo adamascado do século dezoito, vestido de corte de alguma das suas avós, exclamou dobrando a fronte ao chão:

- Bem vindo, meu príncipe, ao humilde tugúrio do filósofo!

Ergueu, com um gesto rasgado, um reposteiro de reps verde, de um verde feio e triste, e introduziu o «príncipe» na sala onde tudo era verde também: o reps que recobria uma mobília de nogueira, o tecto de tabuado, as listas verticais do papel da parede, o pano franjado da mesa, e o reflexo de um espelho redondo, inclinado sobre o sofá.

Não havia um quadro, uma flor, um ornato, um livro - apenas sobre a jardineira uma estatueta de Napoleão I, de pé, equilibrado sobre o orbe terrestre, nessa conhecida atitude em que o herói, com um ar pançudo e fatal, esconde uma das mãos por traz das costas, e enterra a outra nas profundidades do seu colete. Ao lado uma garrafa de Champagne, encarapuçada de papel dourado, esperava entre dois copos esguios.

- Para que tens tu aqui Napoleão, John?

- Como alvo de injúrias, disse Ega. Exercito-me sobre ele a falar dos tiranos...

Esfregou as mãos, radiante. Estava nessa manhã em alegria e em verve. E quis imediatamente mostrar a Carlos o seu quarto de cama: aí reinava um cretone de ramagens alvadias sobre fundo vermelho; e o leito enchia, esmagava tudo. Parecia ser o motivo, o centro da «Vila Balzac»; e nele se esgotara a imaginação artística do Ega. Era de madeira, baixo como um divã, com a barra alta, um rodapé de renda, e de ambos os lados um luxo de tapetes de felpo escarlate; um largo cortinado de seda da Índia avermelhada envolvia-o num aparato de tabernáculo; e dentro, à cabeceira, como num lupanar, reluzia um espelho.

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Capa do livro Os Maias
Páginas: 630
Página atual: 127

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Capítulo 1 1
Capítulo 2 26
Capítulo 3 45
Capítulo 4 75
Capítulo 5 98
Capítulo 6 126
Capítulo 7 162
Capítulo 8 189
Capítulo 9 218
Capítulo 10 260
Capítulo 11 301
Capítulo 12 332
Capítulo 13 365
Capítulo 14 389
Capítulo 15 439
Capítulo 16 511
Capítulo 17 550
Capítulo 18 605
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