As Viagens de Gulliver - Cap. 5: Capítulo III Pág. 247 / 339

Em seguida, supliquei-lhe também que, em atenção ao meu protector, o rei de Luggnagg, me dispensasse da obrigação imposta aos meus compatriotas de pisar o crucifixo, pois' chegara ao Japão por infortúnios, sem propósitos comerciais. Quando se lhe traduziu esta última petição, o imperador pareceu surpreender-se um pouco e respondeu-me que julgava que era o primeiro dos meus conterrâneos que pusera tão extremas objecções e que começava a duvidar que fosse um verdadeiro holandês; suspeitava até que eu fosse cristão. No entanto, pelos motivos que expusera e, sobretudo, para dar satisfação ao rei de Luggnagg com uma prova especial da sua predilecção, estava disposto a satisfazer este singular capricho. Mas isto devia ser feito com habilidade e os seus funcionários aduaneiros deveriam simular esquecimento pois, conforme me assegurou, se a verdade fosse descoberta, os meus compatriotas holandeses degolar-me-iam durante a viagem. Através do intérprete manifestei o meu reconhecimento por este favor tão inusitado. E como por aquela altura havia tropas com destino a Nagasaki, o seu comandante recebeu a ordem de conduzir-me ali são e salvo; sobre o assunto do crucifixo recebeu instruções específicas.

Cheguei a Nagasaki a 9 de Junho de 1709, após uma longa e desagradável viagem. Depressa se me deparou um grupo de marinheiros holandeses alistados no Amboyna, de Amsterdão, um sólido barco de guerra de quatrocentas e cinquenta toneladas. Vivi muito tempo na Holanda, quando estudava em Leyden, e falava correctamente o flamengo. Os marinheiros em breve souberam da última etapa da minha viagem e fizeram-me numerosas perguntas sobre a minha vida e viagens. Inventei uma história simples e verosímil, ocultando-lhes quase tudo.





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