O Bobo - Cap. 11: XI - O subterrãneo Pág. 103 / 191

– Respondo por Dom Bibas – acudiu o abade. – Não é ele capaz de trair-nos. Quis exercitar seu mister, e bem sabeis que seu mister é gracejar.

– Fr. Hilarião! – interrompeu o bobo – entre a vida que foi, e a que é e há-de ser, há para mim um abismo. Cavaram-no os estrangeiros; mas eu os despenharei aí! E depois Dom Bibas, o folião, o bobo, assentar-se-á na borda dele para lhes alegrar a queda: para rir e zombar. À pergunta que fizestes se haveria meio de sair de Guimarães este nobre cavaleiro, que intenta manchar seu rico bulhão no sangue vil de um jogral, e os homens de armas da Maia, respondi eu que havia. Juro que não menti. Tenho para isso meio fácil. Podeis aproveitar-vos dele, se é que o benefício de um bufão não desonra um rico-homem de ilustre linhagem.

– Dom Bibas! – replicou o abade, fitando nele os olhos como quem buscava ler na sua alma – é impossível que queiras escarnecer de um nobre cavaleiro que nunca te maltratou e de um pobre velho que sempre achaste indulgente, enquanto os outros monges te repeliam como a um réprobo, desde o dia em que despiste o nosso santo hábito para te atirares aos deleites do mundo e, di-lo- -ei, à devassidão da vida de um jogral. É impossível, repito, que as tuas palavras sejam apenas uma cruel zombaria. Mas como hei-de eu acreditar-te? Que auxílio nos podes prestar, tu humilhado e fraco?…

– Bem sei que sou fraco! Oh! bem sei! – interrompeu o bobo com um acento em que se misturava a desesperação e a dor. – Essa terrível verdade está escrita com sangue no meu corpo pelas mãos dos cavalariços de Fernando Peres, e com fogo nos seios da minha alma pelo dedo da amargura. Sou fraco!... porque não embraço um escudo, nem meneio uma acha de armas! Sou um homem condenado ao mais atroz dos tormentos; a chamar o riso aos lábios e a alegria ao gesto quando o coração está em noite. Sou fraco... porém não sou vil! Mais fraca é a víbora... e também o homem, que é forte, a calca e passa avante: mas pisada, ela alça o colo, vibra a língua farpada: e passado um dia, por cima do cadáver do forte, do homem, o ente fraco, a víbora, pode arrastar-se, rolar, sem que ele alevante o pé para a esmagar de novo!...





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