O Primo Basílio - Cap. 11: CAPÍTULO XI Pág. 315 / 414

- Além disso o tratamento é incompatível com o serviço - disse Julião.

- Enfim, mesmo a engomar roupa se pode tomar digitalis ou quinino; mas é que o verdadeiro tratamento é o repouso, é a absoluta exclusão da fadiga. Que ela um dia se zangue ou que tenha uma manhã de canseira, e pode ir-se!

- E vai adiantada a doença? - perguntou Jorge.

- Pelo que ela diz já tem a dificuldade asmática, opressões, uma dor aguda na região cardíaca, flatulência, umidade nas extremidades - o diabo!

- Olha que espiga! - murmurou Jorge olhando em roda.

- É pô-la na rua! - resumiu D. Felicidade.

Quando ficaram sós, às onze horas, Jorge disse logo a Luísa:

- Que te parece esta, hem? É necessário descartar-mo-nos da criatura. Não quero que me morra em casa!

Ela, sem se voltar, diante do toucador, tirando os brincos começou a dizer - que não se podia mandar também a pobre criatura morrer para a rua... Lembrou vagamente o que ela tinha feito pela tia Virgínia... Ia colocando devagar as suas palavras com a cautela com que se pousa o pé num terreno traiçoeiro. - Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, que ela fosse viver algures...

Jorge, depois de um silêncio, respondeu:

- Não tenho dúvida em lhe dar dez ou doze libras, e que se vá, que se arranje!

"Dez ou doze libras!" - pensou Luísa com um sorriso infeliz. - E à beira do toucador olhava para o seu rosto, ao espelho, com uma indefinida saudade, como se as suas faces devessem dentro em pouco estar cavadas pela aflição, e os seus olhos fatigados pelas lágrimas...

Porque, enfim, a crise tinha chegado. Se Jorge insistisse em despedir a criatura, ela não podia, sem provocar um espanto e uma explicação, dizer a Jorge: "não quero que ela saia, quero que ela aqui morra!" E Juliana vendo-se expulsa, desesperada, doente, percebendo que Luísa não a defendia, não a reclamava - vingar-se-ia! Que havia de fazer?

Ergueu-se ao outro dia numa grande agitação.





Os capítulos deste livro