No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e libras que Vilaça lhe entregara à porta do Banco de Portugal, Ega, com o coração aos pulos, mas decidido a ser forte, a afrontar a crise serenamente, subiu ao primeiro andar da rua de S. Francisco. O Domingos, de gravata preta, movendo-se em pontas de pés, abriu o reposteiro da sala. E Ega pousara apenas sobre o sofá a velha caixa de charutos da Monforte - quando Maria Eduarda entrou, pálida, toda coberta de negro, estendendo-lhe as mãos ambas.
- Então Carlos ?
Ega balbuciou:
- Como V. Ex.ª pode imaginar, num momento destes... Foi horrível, assim de surpresa...
Uma lágrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ela não conhecia o Sr. Afonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas sofria realmente por sentir bem o sofrimento de Carlos... O que aquele rapaz estremecia o avô!
- Foi de repente, não?
Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a coroa que ela mandara. Contou os gemidos, a aflição do pobre Bonifácio...
- E Carlos? repetiu ela.
- Carlos foi para Santa Olávia, minha senhora.
Ela apertou as mãos, numa surpresa que a acabrunhava. Para Santa Olávia! E sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror empalidecia-a mais, diante daquela partida tão arrebatada, quase parecida com um abandono. Terminou por murmurar, com um ar de
resignação e de confiança que não sentia:
- Sim, com efeito, neste momento não se pensa nos outros...
Duas lágrimas corriam-lhe devagar pela face. E diante desta dor, tão humilde e tão muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os dedos trémulos no bigode, viu Maria chorar em silêncio. Por fim ergueu-se, foi à janela, voltou, abriu os braços diante dela numa aflição:
- Não, não é isso, minha querida senhora! há outra coisa, há ainda outra coisa! Tem sido para nós dias terríveis! Tem sido dias de angústia...