Não era nervosismo. Efectivamente, longe de estar nervosa, achava-se absolutamente senhora de si. Era simplesmente má sorte. Foi um completo fracasso.
Até os espectadores ignaros da plateia e da galeria se alhearam da peça. Começaram a falar em voz alta e a assobiar. O judeu, que assistia de pé ao fundo da plateia, praguejava e batia furioso com os pés no chão. A única pessoa que parecia impassível era a própria actriz.
Ao terminar o segundo acto, rebentou uma tempestade de assobios, e Lord Henry levantou-se e vestiu o sobretudo.
- É lindíssima, Dorian - disse -, mas não sabe representar. Vamos embora.
- Quero ver a peça toda - respondeu o jovem, numa voz áspera, amarga. - Sinto imenso ter-lhe feito perder uma noite, Henry. Peço-lhes a ambos desculpa.
- Meu caro Dorian, talvez Miss Vane esteja doente atalhou Hallward.
- Voltaremos outra noite.
- Oxalá que estivesse doente - tornou Dorian. Mas parece-me simplesmente insensível e fria. Ontem foi uma grande artista. Hoje é apenas uma actriz banal, medíocre.
- Não fale assim da mulher amada, Dorian. O amor é uma coisa mais maravilhosa do que a Arte.