A República - Cap. 1: Capítulo 1 Pág. 13 / 290

— Amigo, portanto, como parece por esse raciocínio, será o homem bom e inimigo o mau?

— Sim.

— Ordenas-nos, pois, que acrescentemos ao que dizíamos inicialmente acerca da justiça que é justo fazer bem ao amigo e mal ao inimigo; agora, além disso, deve-se dizer que é justo fazer bem ao amigo bom e mal ao inimigo mau?

— Perfeitamente — disse ele —, assim parece-me bem expresso.

— Portanto — repliquei —, é próprio do justo fazer mal a quem quer que seja?

— Sem dúvida — respondeu — que é preciso fazer mal aos maus que são nossos inimigos.

— Mas os cavalos a que fazemos mal tornam-se melhores ou piores? — Piores.

— Relativamente à virtude dos cães ou à dos cavalos?

— A dos cavalos.

— E os cães a que se faz mal tornam-se piores, relativamente à virtude dos cães, e não à dos cavalos?

— Assim é.

— Mas os homens, camarada, a quem se faz mal, diremos de igual modo que se tornam piores, relativamente à virtude humana?

— Absolutamente.

— Ora, a justiça não é virtude humana?

—Assim é, também.

— Portanto, meu amigo, os homens a quem se faz mal tornam-se necessariamente piores.

— Assim parece.





Os capítulos deste livro