Eneida - Cap. 9: Os troianos são Cercados Pág. 169 / 235

Turno, envergando já a sua armadura refulgente, percorria o acampamento a galope, despertando os guerreiros e elevando aos céus gritos de vingança. Espetando as cabeças dos dois troianos na ponta de duas lanças, os rótulos seguiram em grande gritaria na direcção do baluarte. Dentro deste, os companheiros de Eneias reforçavam a parte esquerda dos muros, porquanto a direita era protegida pelas éguas do rio. A ausência de Eneias e a visão horrível e macabra das cabeças dos dois jovens mortos, ainda gotejando sangue, abatia-lhes o moral.

A mensageira Fama, correndo veloz nos seus pés alados, já fizera chegar a noticia aos ouvidos da mãe de Euríalo. Frio gélido percorreu-lhe os ossos, e caiu-lhe da mão a lançadeira da roca. A lá emaranhou-se. A pobre mulher precipitou-se então, fora de si, para as muralhas, por entre os soldados. Não se apavorou nem com os gritos de guerra nem com as setas e encheu os ares com o seu pranto:

— É então nesse estado que te vejo, ó Euríalo? Pois tu, repouso único da minha velhice, pudeste deixar-me só? Não permitiste que a mãe dissesse adeus a seu filho, indo para tão difícil empresa? Ai de mim! Agora jazes em terra inimiga, presa dos cães e das aves de rapina! Eu, tua mãe, não te acompanharei nos teus funerais, não te fecharei os olhos, não te lavarei as feridas, nem te vestirei com as roupas que eu, cuidadosa, preparava dia e noite! Aonde irei procurar-te? Que terra possui agora os teus despojos, os teus membros arrancados, o teu cadáver mutilado? Foi isso, meu filho, essa cabeça que ora me mostras, que segui desde a Tróia longínqua, por todos os mares e perigos? Trespassai-me, se tendes dó. Arrojai contra mim todas essas setas, ó rótulos, matai-me a mim com o ferro. Ó Júpiter, ó grande pai, compadece-te de mim e precipita-me com o teu raio no Tártaro, cortando os laços que me prendem a esta vida miserável.

Os corações dos troianos esmoreceram com esse pranto e todos exalaram lamentos. O animo para o combate alquebrava-se. Ao mando de Iulo, dois guerreiros ampararam a infeliz anciã e conduziram-na para a sua tenda.





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