Procurar livros:
    Procurar
Procurar livro na nossa biblioteca
 
 
Procurar autor
   
Procura por autor
 
marcador
  • Sem marcador definido
Marcador
 
 
 
Navegar

Capítulo 5: Capítulo 5

Página 53
O vestido flutuava-lhe no corpo quando se movia, e a grande e sedosa trança do seu cabelo mexia-se de um lado para o outro.

Todas as manhãs eu ficava deitado no chão da sala da frente, espreitando a sua porta, com a gelosia corrida para que não me vissem. Quando a rapariga aparecia, o coração principiava a bater. Corria para o hall, agarrava nos livros e seguia-a. Levava-a sempre de olho até chegarmos à altura em que os nossos caminhos divergiam; nessa ocasião apressava o passo para me cruzar com ela. Isto acontecia todas as manhãs. Nunca lhe falara; apenas ousei dizer-lhe algumas palavras casuais. No entanto, o nome da rapariga excitava o meu sangue juvenil.

A sua imagem acompanhava-me mesmo até aos lugares mais hostis a qualquer romance. Nas noites de sábado, quando a minha tia ia às compras, eu acompanhava-a, a fim de segurar alguns embrulhos. Atra- vessávamos as ruas cintilantes, apanhava-mos empurrões de homens bêbedos e de vendedeiras, passávamos pelo meio de operários, ouviam-se as ladainhas dos rapazes que estavam de guarda aos barris de carne de porco, as vozes nasaladas dos cantores da rua, cantando acerca de O’Donvan Rossa, ou qualquer balada sobre a nossa terra. Todos esses ruídos convergiam, numa sensação de vida para mim: imaginava abrir caminho com a minha taça através de uma multidão de adversários. O seu nome brotava dos meus lábios em estranhas orações que eu próprio não compreendia. Os meus olhos enchiam-se amiudadamente de lágrimas (não sabia porquê), e por vezes uma enxurrada de ternura parecia inundar-me o peito. Não pensava no futuro. Ignorava se algum dia lhe dirigiria a palavra; se lhe falasse, não sabia como confessar-lhe a minha estranha adoração. Mas o meu corpo era uma harpa, e as suas palavras e gestos eram como dedos que corriam nas cordas.

Certa noite fui até à sala onde o padre morrera. Era uma noite chuvosa e escura, e não se sentia ruído algum em toda a casa. Através de uma das vidraças partidas, ouvia-se a chuva cair de encontro ao chão - finas e contínuas agulhas de água brincando.

Qualquer lâmpada distante ou janela iluminada, brilhavam no fundo da noite. Sentia-me contente por estar às escuras. Os meus sentidos pareciam desejar encobrir-se, e, percebendo que os estava atraiçoando, obrigaram-me a apertar as palmas das mãos, uma de encontro à outra, enquanto eu murmurava: «Oh, amor! Amor!»...

<< Página Anterior

pág. 53 (Capítulo 5)

Página Seguinte >>

anúncio
Capa do livro Gente de Dublin
Páginas: 117
Página atual: 53

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Capítulo 1 1
Capítulo 2 9
Capítulo 3 30
Capítulo 4 36
Capítulo 5 52
Capítulo 6 58
Capítulo 7 63
Capítulo 8 69
Capítulo 9 78
Capítulo 10 86
Links Relacionados
 
Artigos: Porque lemos literatura | O Ensaio na literatura | O primeiro texto da língua portuguesa 
© 2010 Ciberforma Informática. Todos os direitos reservados. Contacto | Política de privacidade | Mapa do Site