A República - Cap. 9: Capítulo 9 Pág. 250 / 290

- E em qualquer outro indivíduo mais do que neste homem tirânico, que o amor e os outros desejos tornam furioso?

- Não o creio.

- Ora, foi ao lançares os olhos sobre todos estes males e outros semelhantes que consideraste que esta cidade era a mais infeliz de todas. - Não tive razão? - inquiriu.

- Tiveste - respondi. - Mas, no que concerne ao indivíduo tirânico, que dizes ao veres nele os mesmos males?

- Que é de longe o mais infeliz de todos os homens.

- Nesse ponto já não tens razão.

-Como?

- No meu entender, não é ainda tão infeliz quanto é possível sê-lo.

- Quem o será então?

- Talvez este te pareça mais infeliz.

- Qual?

- O que, nascido tirânico, não passa a sua vida numa condição privada, mas é bastante desafortunado para que um acaso funesto faça dele tirano de uma cidade.

- Parece-me, de acordo com o que dissemos antes, que tens razão.

- Sim, mas não podemos contentar-nos com conjecturas em semelhante matéria; temos de examinar, à luz da razão, os dois indivíduos que nos ocupam. Com efeito, o inquérito incide sobre o mais importante dos temas: a felicidade e a infelicidade da vida.

- É exacto - disse ele.

- Por conseguinte, vê se tenho razão. No meu entender, é preciso ter uma ideia da situação do tirano a partir disto.

- A partir de quê?

- A partir da situação de um desses ricos particulares que, em certas cidades, possuem muitos escravos; têm este ponto de semelhança com os tiranos que comandam muita gente; a diferença está só no número.

- É verdade.

- Sabes bem que esses particulares vivem em segurança e não temem os seus servidores.

- Que teriam a temer?

- Nada. Mas vês a razão?

- Sim, é que toda a cidade presta assistência a cada um desses particulares.

- Bem dito. Mas se um deus, tirando da cidade um desses homens que têm cinquenta escravos e mais, o transportasse, com a sua mulher, os filhos, os seus bens e servidores, para um deserto, onde não pudesse esperar auxílio de nenhum homem livre, não achas que viveria numa extrema e contínua apreensão de morrer às mãos dos escravos, ele, os seus filhos e a sua mulher?

- Sim, a sua apreensão seria extrema.

- Não ficaria reduzido a fazer a corte a alguns deles, a aliciá-los com promessas, a libertá-los sem necessidade, enfim, a tornar-se adulador dos seus escravos?

- Seria obrigado a passar por isso - disse ele - ou a perecer.





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