A República - Cap. 3: Capítulo 3 Pág. 98 / 290

- E também é preciso impor-lhes trabalhos, dores, combates, para nos certificarmos da sua constância.

- Está certo - disse ele.

- Ora - continuei -, devemos fazê-los entrar numa terceira prova, a da sedução, e observá-los: assim como se conduzem os potros no meio dos ruídos e tumultos para ver se são medrosos, é preciso, durante a sua juventude, transportar os guerreiros ao meio dos objectos assustadores, depois reconduzi-los aos prazeres, para descobrir - com muito mais cuidado do que se experimenta o ouro pelo fogo - se resistem ao encanto e se mostram decentes em todas essas circunstâncias, se permanecem bons guardas de si mesmos e da música que aprenderam, se se conduzem sempre com ritmo e harmonia e são, por último, capazes de se tornar eminentemente úteis a si mesmos e à cidade. E aquele que tiver sofrido as provas da infância, da adolescência e da idade viril e delas tiver saído puro nomeá-lo-emos chefe e guarda da cidade, honrá-lo-emos em vida e depois de morto, concedendo-lhe a insigne recompensa de túmulos e monumentos à sua memória; mas aquele que assim não for será excluído. Aqui tens, Gláucon, como deve ser feita, na minha opinião, a escolha dos chefes e guardas, o que foi descrito de uma forma geral e sem entrar em pormenores.

- Sou da tua opinião - disse ele.

- Por conseguinte, para sermos realmente tão exactos quanto possível, não convirá chamar, por um lado, guardas perfeitos aos que velam pelos inimigos de fora e os amigos de dentro, a fim de tirarem a uns o desejo, aos outros de fazer mal, e dar, por outro lado, aos jovens a que há pouco chamávamos guardas o nome de auxiliares e defensores da ideia dos chefes?

- Creio que sim.

- Agora - prossegui -, que meio teremos de fazer acreditar numa nobre mentira - uma daquelas que qualificámos de necessárias -, principalmente aos chefes ou, pelo menos, aos outros cidadãos?

- Que mentira? - inquiriu.

- Uma que não é nova, mas de origem fenícia - respondi. - Diz respeito a algo que já se passou em muitos sítios, como dizem os poetas e fizeram acreditar, mas que não sucedeu nos nossos dias, que talvez nunca venha a acontecer e que, para ser admitida, exige muita eloquência persuasiva.

- Parece que hesitas em falar!

- Verás, quando eu tiver falado, que tenho motivos para hesitar.

- Mas fala sem receio.





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