Eneida - Cap. 8: Eneias em Apuros Pág. 150 / 235

Já a noite, com as suas asas foscas, cobria a terra. Vénus, com mil motivos para inquietar o seu coração de mãe, pois sabia das ameaças dos laurentinos e da fúria guerreira que reinava na região, foi ter com Vulcano, seu esposo, e assim lhe falou:

— Enquanto os reis gregos devastavam Pérgamo, a condenavam à ruína, a queimavam com archotes, nenhum auxilio pedi para os seus infelizes habitantes. Não te pedi armas nem socorro, pois não queria que te afadigasses inutilmente, caríssimo esposo, posto que eu muito devesse aos filhos de Prumo e muitas vezes lamentasse os cruéis sofrimentos de Eneias. Este, agora, seguindo ordens do omnipotente Júpiter, chegou à região dos rótulos. Venho, suplicante, rogar que dês armas a meu filho. Sou mãe! Repara que as tropas se reúnem, que as muralhas fecham os portões e os arsenais aguçam o ferro das armas contra os meus.

Vénus aproximou-se do marido e enlaçou-o nos seus níveos braços. Vulcano, a princípio hesitante, cedeu finalmente ao calor e ao frescor da esposa linda, à fragrância do seu cabelo. A sua alma incendiou-se de amor e uma chama percorreu-lhe as veias até ao âmago dos ossos. Como quando as nuvens enegrecidas são iluminadas pelo clarão esfuziante do raio, assim também o rosto de Vulcano se acendeu de alegria e rejubilou-se a própria deusa, contente do poder da sua beleza. E o deus falou:

— Para que procuras razões tão distantes, Vénus? Fugiu de ti a confiança que me tens? Se tivesses querido, eu teria fabricado armas invencíveis para os príncipes troianos e poderia ter salvo Tróia, pois nem Júpiter todo-poderoso nem as Parcas se importariam de ver a cidadela de Príamo resistir maus de dez anos. Agora, se estás disposta a guerrear, aqui estou eu para te prestar o auxilio que queres, até onde a minha arte o permitir. O que se puder fazer com o ferro fundido, o que puderem os fogos e os sopros dos foles, não duvides, que te darei.





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