E Basílio continuava:
- Vendo tudo o que tenho lá fora, alugo aqui uma casinha em Lisboa, em Buenos Aires, talvez... Não te agrada? Dize...
Ela calava-se; aquelas palavras, as promessas, a que a voz dele metálica e velada dava um vigor mais amoroso, iam-na perturbando como a inebriação dum licor forte. O seu seio arfava.
Basílio baixou a voz, disse:
- Quando estou ao pé de ti sinto-me tão feliz; parece-me tudo tão bom!...
- Se isso fosse verdade! - suspirou ela, encostando-se para o fundo do cupé.
Basílio prendeu-lhe logo a cintura; jurou-lhe que sim! Ia pôr a sua fortuna em inscrições. Começou a dar-lhe provas: já falara a um procurador; citou-lhe o nome, um seco, de nariz agudo...
E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes:
- E se fosse verdade, dize, que fazias?
- Nem eu sei - murmurou ela.
Iam entrando no Lumiar, e por prudência desceram os estores. Ela afastou um, e, espreitando, via fora passar rapidamente, ao lado do trem, árvores empoeiradas; um muro de quinta de um cor-de-rosa sujo, fachadas de casas mesquinhas; um ônibus desatrelado; mulheres sentadas ao portal, à sombra, catando os filhos; e um sujeito vestido de branco, de chapéu de palha, que estacou, arregalou os olhos para as cortinas fechadas do cupé. E ia desejando habitar ali numa quinta, longe da estrada; teria uma casinha fresca com trepadeiras em roda das janelas, parreiras. sobre pilares de pedra, pés de roseiras, ruazinhas amáveis sob árvores entrelaçadas, um tanque debaixo de uma tília, onde de manhã as criadas ensaboariam, bateriam a roupa, palrando.