Procurar livros:
    Procurar
Procurar livro na nossa biblioteca
 
 
Procurar autor
   
Procura por autor
 
marcador
  • Sem marcador definido
Marcador
 
 
 
Navegar

Capítulo 9: Capítulo 9

Página 79
Todas as manhãs vinha de Chapelizod, no eléctrico. Ao meio dia costumava ir ao Dam Burkes para almoçar; a refeição constava de uma garrafa de cerveja e alguns biscoitos. Às quatro horas ficava livre. Jantava num restaurante famoso pela sua honestidade, na Rua George, e onde tinha a certeza de que não iria encontrar a nova sociedade de Dublin. Passava as noites ao piano ou vagueando pelos arredores da cidade. Apreciava muito a música de Mozart e isso levava-o, às vezes, a assistir a algum concerto. Essas eram as únicas dissipações da sua vida.

Não tinha nem companheiros, nem amigos, nem crença, nem igreja. Vivia a sua vida espiritual sem comunhão com os outros, visitando os seus parentes uma vez por ano, no Natal, e acompanhando-os ao cemitério, quando morriam. Cumpria com esses dois deveres, mas nada mais concedia às outras convenções que regulam a vida cívica. Admitia pensar que, em certas condições, seria capaz de roubar o banco onde trabalhava, mas como essas condições nunca apareciam, a sua vida decorria monótona e sem história.

Uma noite, achou-se sentado ao pé de duas senhoras, num concerto. A casa deixava admitir um fracasso. A senhora que estava ao lado dele, olhou uma ou duas vezes em redor, e depois disse:

- Que pena a casa estar tão vazia!...

É tão desagradável um artista ser obrigado a cantar para cadeiras desocupadas...

Ele tomou a apreciação como um convite para conversar. Ficou surpreendido com a sua falta de acanhamento. Enquanto conversava, tentava fixar a senhora na sua memória. Quando soube que a rapariga nova que estava ao lado, era filha dela, calculou que a senhora devia ter pouco mais ou menos a sua idade. O rosto que certamente fora belo, conservava-se inteligente. Era um rosto oval, de feições acentuadas. Os olhos eram firmes e de cor azul-escura.

A prímeira impressão que dava o seu olhar era a de uma nota de desafio: depois, ocorria uma espécie de colapso entre a pupila e a íris, mostrando durante um instante um temperamento de grande sensibilidade. A pupila voltava rapidamente ao seu lugar e essa natureza que se adivinhara adormecia de novo sob o reino da prudência.

O seu casaco de astracã, moldando um busto cheio, marcava mais ainda a nota de desejo.

Tornou a encontrá-la, algumas semanas mais tarde, num concerto do Earlsfort Terrace e aproveitou certa ocasião em que a filha estava distraída, para se tornar íntimo.

<< Página Anterior

pág. 79 (Capítulo 9)

Página Seguinte >>

anúncio
Capa do livro Gente de Dublin
Páginas: 117
Página atual: 79

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Capítulo 1 1
Capítulo 2 9
Capítulo 3 30
Capítulo 4 36
Capítulo 5 52
Capítulo 6 58
Capítulo 7 63
Capítulo 8 69
Capítulo 9 78
Capítulo 10 86
Links Relacionados
 
Artigos: Porque lemos literatura | O Ensaio na literatura | O primeiro texto da língua portuguesa 
© 2010 Ciberforma Informática. Todos os direitos reservados. Contacto | Política de privacidade | Mapa do Site