Cândido - Cap. 22: CAPÍTULO XXII - O que aconteceu em França a Cândido e a Martin Pág. 84 / 118

O governador de Buenos Aires apoderou-se de todos os meus bens, mas resta-me ainda o vosso coração. Vinde, que a vossa presença me restituíra a vida ou me fará morrer de prazer.

Esta carta encantadora, esta carta inesperada, extravasou Cândido de uma alegria inexprimível; ao mesmo tempo, a doença da sua querida Cunegundes encheu-o de dor. Repartido entre estes dois sentimentos, pegou no seu ouro e nos seus diamantes e fez-se conduzir, acompanhado de Martin, ao hotel em que se encontrava a menina Cunegundes.

Entra trémulo de emoção, o seu coração palpita, a voz soluça-lhe. Quer abrir os cortinados do leito, quer luz para ver melhor.

- Não faça isso - disse-lhe a criada -, a luz pode matá-la.

- E fecha imediatamente as cortinas.

- Minha querida Cunegundes, como estais vós? - dizia Cândido a chorar. - Se não podeis ver-me, falai-me, ao menos.

- Ela não pode falar - observou-lhe a criada.

A dama solta então do leito uma mão gorducha, que Cândido banha com as suas lágrimas e que em seguida enche de diamantes, deixando um saco cheio de ouro na poltrona.

No meio dos seus transportes chega um chefe da polícia, acompanhado pelo abade perigordino e por alguns guardas.

- Ora então - disse ele -, são estes os dois estrangeiros suspeitos?

E ordena imediatamente aos guardas que os prendam e os conduzam à cadeia.

- Não é assim que tratam os viajantes no Eldorado - disse Cândido.

- Estou cada vez mais maniqueu - disse Martin.

- Mas, senhor, para onde nos levais? - perguntou Cândido.

- Para o fundo de uma enxovia - responde o chefe da polícia.

Martin, recobrando a serenidade, viu que a dama que se fazia passar por Cunegundes era uma embusteira, o Sr.





Os capítulos deste livro

CAPÍTULO I - Como Cândido foi educado num belo castelo e porque dele foi expulso 1 CAPÍTULO II - O que aconteceu a Cândido entre os Búlgaros 4 CAPÍTULO III - Como Cândido se livrou dos Búlgaros e o que lhe aconteceu 7 CAPÍTULO IV - Como Cândido encontrou o seu antigo mestre de filosofia, o Dr. Pangloss, e o que lhe aconteceu 10 CAPÍTULO V - Tempestade, naufrágio, tremor de terra, e o que aconteceu ao Dr. Pangloss, a Cândido e ao anabaptista Tiago 14 CAPÍTULO VI - Como se fez um belo auto-de-fé para impedir os tremores de terra e como Cândido foi açoitado 18 CAPÍTULO VII - Como uma velha cuidou de Cândido e ele encontrou aquela que amava 20 CAPÍTULO VIII - História de Cunegundes 23 CAPÍTULO IX - O que aconteceu a Cunegundes, a Cândido, ao inquisidor-mor e ao judeu 27 CAPÍTULO X - Em que angústia Cândido, Cunegundes e a velha chegam a Cádis e como embarcaram 29 CAPÍTULO XI - História da velha 32 CAPÍTULO XII - Continuação da história das desgraças da velha 36 CAPÍTULO XIII - Como Cândido foi obrigado a separar-se da bela Cunegundes e da velha 40 CAPÍTULO XIV - Como Cândido e Cacambo foram recebidos entre os jesuítas do Paraguai 43 CAPÍTULO XV - Como Cândido matou o irmão da sua querida Cunegundes 47 CAPÍTULO XVI - O que aconteceu aos dois viajantes com duas raparigas, dois macacos e os selvagens chamados Orelhões 50 CAPÍTULO XVII - Chegada de Cândido e do seu criado ao país do Eldorado e o que aí Viram 54 CAPÍTULO XVIII - O que viram no país do Eldorado 58 CAPÍTULO XIX - O que lhes aconteceu em Suriname e como Cândido conheceu Martin 64 CAPÍTULO XX - O que aconteceu no mar a Cândido e a Martin 70 CAPÍTULO XXI - Cândido e Martin aproximam-se das costas de França e filosofam 73 CAPÍTULO XXII - O que aconteceu em França a Cândido e a Martin 75 CAPÍTULO XXIII - Cândido e Martin dirigem-se para as costas de Inglaterra e o que por lá vêem 87 CAPÍTULO XXIV - De Paquette e do Irmão Giroflée 89 CAPÍTULO XXV - Visita ao Sr. Pococuranté, nobre veneziano 94 CAPÍTULO XXVI - De uma ceia que Cândido e Martin tiveram com seis estrangeiros e quem eles eram 100 CAPÍTULO XXVII - Viagem de Cândido para Constantinopla 104 CAPÍTULO XXVIII - O que aconteceu a Cândido, Cunegundes, Pangloss, Martin, etc. 108 CAPÍTULO XXIX - Como Cândido reencontrou Cunegundes e a velha 111 CAPÍTULO XXX – Conclusão 113