Ecce Homo - Cap. 7: Humano, demasiado Humano Pág. 64 / 115

Humano, demasiado Humano

Com dois apêndices

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Humano, demasiado Humano é o monumento de uma crise. Tem como subtítulo «Livro para espíritos livres» e quase de frase a frase exprime uma vitória: a libertação do que não era próprio da minha natureza. O idealismo é-me estranho: o título significa «ali onde vós vedes coisas ideais, vejo eu coisas humanas, demasiado humanas...» Conheço melhor o homem... Eis o sentido em que deve entender-se a expressão «espírito livre»: um espírito «que chegou a ser livre», que voltou a tomar posse de si próprio. A voz é completamente outra, o tom diferente: o livro seria considerado subtil, ágil, e em certos momentos duro e sarcástico. Uma nobre espiritualidade aparece constantemente defrontando e sobrepujando a corrente passional que corre nas profundidades. Assim se compreende a publicação deste meu livro em 1878, ano do centenário da morte de Voltaire, Pois Voltaire, ao contrário de quantos escreveram depois dele, é antes de mais nada um grande senhor do espírito: o mesmo exactamente que eu também sou.

O nome de Voltaire à frente de uma obra minha era realmente um 'progresso para mim próprio... Quem olhar atento, logo descobre um espírito implacável, que conhece todos os escaninhos nos quais o ideal se abriga, onde ele tem as suas trincheiras e, digamos, o seu último baluarte. De archote na mão, cuja chama não vacila, projecta o espírito uma serena luz nesse mundo subterrâneo do ideal. É a guerra, mas guerra sem pólvora e sem fumo, sem atitudes guerreiras, sem gestos patéticos nem contorções, pois tudo isto seria «idealismo». Vai-se depositando no gelo um erro e outro erro; o ideal não é refutado, é congelado... Aqui, por exemplo, congela o «génio»; do lado





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